Arquivo da tag: sereia

A Ilha Maldita (Bernardo Guimarães)

“Por esse tempo já essa ilha malsinada que tanto dava que pensar, era o terror e o duende dos pescadores por toda a extensão destas costas. Corriam, desde tempos imemoriais, entre o vulgo lendas sinistras e aterradoras a respeito dessa ilhota que se apresentava como um rochedo medonho e inacessível, erguendo cinco ou seis braças acima das ondas, liso e escarpado á maneira de barbacã denegrida e inexpugnável de um castelo ro­queiro. (…) Uma tempestade eterna roncava-lhe entorno, cingindo-a de alvos escarcéus de espuma, que incessantemente, se arrojavam é recuavam em perpétua escalada contra as titânicas e inabaláveis muralhas, indo lamber-lhe até o alto das ameias. (…) Alguns pre­tendiam fazer crer que era um monstro marinho de espantosas dimensões; mas o que é certo, e que todos acreditavam e acre­ditam até hoje, é que aquela penedia é uma ilha que anda solta a boiar sobre os mares, e que é nada menos que o palácio flutuante de uma sereia, feiticeira ou fada marinha, a qual como poder de seu condão e de seus conjuros diabólicos a faz mover-se de um ponto a outro, e submergir-seashport ou surgir á tona da água conforme o seu capricho. Contavam mais que essa sereia ou fada, com a magia de seus cantares e artifícios satânicos, cos­tumava atrair para lá alguns-pescadores dos mais jovens e for­mosos, e que lá os guardava para sempre encerrados em suas impenetráveis espeluncas. Alguns também, que tinham tido a rara fortuna de avizinhar-se da ilha sem lá ficarem para sempre detidos, referiram que pelas penedias que a cercavam ressoavam har­monias e cantares suavíssimos, e asseguravam mesmo ter visto sobre a crista dos penedos uma donzela de estranha formosura, dedilhando uma harpa de ouro engastada de pérolas, e entoando canções tão tristes e maviosas que faziam gemer de saudade os próprios rochedos. Sabia-se até o numero e os nomes das desestruturadas vitimas que tinham caído nas ciladas da maléfica e perigosa feiticeira dos mares.”

Leia A Ilha Maldita, de Bernardo Guimarães


O canto da sereia em terra brasileira: o caso de “A Ilha Maldita” de Bernardo Guimarães (Maurício Cesar Menon)

“Publicado em 1879 pela casa Garnier, o romance A Ilha Mmaxresdefaultaldita, de Bernardo Guimarães parece não ter encontrado grande ressonância entre os leitores da época, o que levou a editora a produzir essa única edição da obra. Uma nova edição do romance só veio a público em 1930, pelo Jornal do Brasil. O fato é que esse romance apresenta em sua composição uma espécie de personagem que raramente desfilou pelas páginas da narrativa oitocentista brasileira – a sereia ou a ondina. Bernardo Guimarães desenvolve uma história de teor maravilhoso, compondo uma personagem feminina envolta em diversos mistérios, bem ao gosto do romantismo que ainda figurava por essa época. Este trabalho pretende analisar a composição dessa personagem enquadrando-a na categoria de monstro, levando-se em conta não apenas suas características físicas, mas também seu caráter transgressor.”

Leia o ensaio completo