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Um vasto prazer, quieto e profundo (Eliane Robert Moraes)

Imagem relacionada“A descrição da tortura de um rato, no conto “A causa secreta” de Machado de Assis, pode parecer tímida se comparada às cenas de suplício narradas por Sade. Todavia, uma leitura mais atenta encontrará ali as condições essenciais para a eclosão de uma misteriosa forma de prazer que costuma estar associada à figura do “sádico”. Uma tal aproximação surpreende ainda mais quando se constata que o sadismo do protagonista do conto assume contornos bem mais verossímeis do que as inconcebíveis fabulações de crueldade dos devassos do marquês. Este texto parte do confronto entre os dois autores, valendo-se do diálogo entre uma dimensão estética (o realismo) e outra ética (o mal), na tentativa de propor uma interpretação do conto machadiano.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos anais do Revista Estudos Avançados (USP), v. 23, n. 65.. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


O diabo como instância moralizadora em conto de Sade (Nicole Ayres Luz)

Resultado de imagem para sade devil illustration“O presente trabalho tem por objetivo analisar o processo de figuração da personagem do diabo no conto “Aventura incompreensível atestada por toda uma província”, do Marquês de Sade. Tal processo guarda características que o distingue das demais personagens cuja figuração aponta para o protocolo realista, e tem por efeito o medo. Esse efeito é assegurado pelo modo como a personagem é construída, com a presença de diversos índices que sugerem sua existência ambígua e seu caráter maligno. A descrição provoca incerteza quanto a sua natureza e seu poder de malignidade, o que suscita o medo no leitor. O viés moralizante da obra vai de encontro à proposta estética do próprio Sade no prefácio à antologia Os Crimes do Amor, intitulado “Nota sobre romances ou a arte de escrever ao gosto do público”, em que discorre sobre as representações do vício e da virtude, de acordo com a natureza humana. Por fim, considera-se o efeito de medo artístico, conforme classificação de Júlio França, gerado por tais personagens: o barão castigado e o diabo punitivo. O leitor, por um lado, é capaz de fruir a narrativa sem correr riscos reais e, por outro, teme por suas próprias escolhas, se o insólito for tomado como referência possível para compreender o mundo racional. O próprio título já revela certa ambiguidade, pois a situação, apesar de incompreensível, foi confirmada por toda a província, evidência que o narrador enfatiza logo no começo do conto.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos anais do III Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional (SEPEL 2016). Republicamos aqui, com autorização do própriao autor, com fins puramente acadêmicos.

 


Múltiplo e maldito: o marquês de Sade (Eliane Robert Moraes)

     Resultado de imagem para marques de sade  “Foi (…) na prisão, que Sade escreveu o primeiro grande romance, Os 120 dias de Sodoma, onde explicitou as bases de seu sistema filosófico por meio da progressão de seiscentas paixões sexuais classificadas em quatro classes – simples, complexas, criminosas e assassinas. Estava dado o primeiro e definitivo passo da trajetória de um escritor que, até o final da vida, se dedicou com rigor e paixão a provar que a liberdade humana só se realiza plenamente no mal.
Para tanto, ele elegeu como personagem central de sua ficção a figura do libertino. Por certo, entre seus contemporâneos não havia quem melhor expressasse o egoísmo aliado ao prazer na crueldade. Mas o marquês não se contentava em ser apenas um historiador da libertinagem: sua literatura filosófica, a exemplo de outras obras do Século das Luzes, pretendia examinar o homem em profundidade, conhecê-lo nas singularidades mais obscuras, dissecá-lo se necessário. Sade levou a extremos os ideais da razão iluminista, dotando seus devassos de uma liberdade absoluta para realizar a mais acabada fantasia sobre os limites da condição humana.”

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(*)Esse ensaio foi publicado originalmente em A Ideia – Revista de cultura libertária (Portugal), v.19, p. 201-205, 2016. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos. 


Quase Plágio: o Roman Noir (Eliane Robert Moraes)

Resultado de imagem para roman noir“Em 1799 o Journal de Paris publica uma advertência ostensiva ao cidadão Pigoreau, responsável pela edição de Valmor et Lydia ou Voyage autour du monde de deux amants qui se cherchaient, assinada pelo editor de Aline et Valcour: “A se tomar a obra pelo título, certamente [o autor] poderá se gabar de ser um dos mais ousados plagiadores da literatura, e me parece que não é oportuno copiar num século em que o público está ávido por novidade, e em que procurar por ela torna-se essencial para quem deseja ser lido. Queira abrir Aline et Valcour ou le Roman Philosophique, impresso na casa Girouard; nos oito volumes que contém essa obra, o senhor encontrará quatro cujo tema é nada mais, nada menos, que uma viagem ao redor do mundo de dois amantes que se procuram”. Reconhece-se nessa denúncia a mão do Marquês de Sade.”

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As convenções góticas em Os 120 Dias de Sodoma (Nicole Ayres Luz)

Resultado de imagem para marques de sadeOs 120 Dias de Sodoma ou A Escola da Libertinagem, produzido em 1785 e publicado apenas no século XX, pelo polêmico Marquês de Sade, é uma obra simbólica do sadismo na literatura. O enredo apresenta quatro aristocratas libertinos, que trancafiam um grande grupo de pessoas, vítimas e ajudantes de seu projeto, em um castelo suíço durante quatro meses para a realização de orgias e torturas diversas, organizadas por ciclos, do mais básico ao mais intenso nível de violência. Os libertinos podem ser classificados como personagens monstruosos, de acordo com análises como as de Jeffrey Jerome Cohen e Julio Jeha, e, mais especificamente, como sádicos, termo derivado da obra do Marquês e cunhado pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing. Os personagens sadianos são devotos da libertinagem, como a uma religião, visando unicamente sua própria satisfação. A perversão sem limites de tais personagens horroriza o leitor, provocando medo artístico, conceito desenvolvido por Júlio França. Por meio desse tipo de reação, percebe-se que é possível experimentar uma sensação de prazer durante a leitura de obras onde predomina a maldade, pela consciência de seu caráter ficcional; a ameaça, portanto, não é real, o que possibilita a fruição estética. Observa-se também o papel do cenário sombrio na construção da narrativa para gerar esse efeito de medo. O castelo de um dos libertinos, localizado numa região isolada da Suíça, possui múltiplos ambientes, devidamente equipados para os fins de experimentação cruel dos protagonistas. Controladas e punidas em caso de desvio das regras estabelecidas pelos sádicos, em um ambiente desconhecido, atemorizante e afastado da civilização, as vítimas se encontram sem salvação possível. Considerando os personagens aristocratas monstruosos, o cenário lúgubre do castelo onde ocorrem os abusos e o pessimismo inerente à narrativa de Sade, o presente trabalho pretende descrever o romance como uma obra gótica.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização da próprioa autora, com fins puramente acadêmicos. 


Os 120 Dias de Sodoma (Marquês de Sade)

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“Convenceram-me de que apenas o vício podia inspirar no homem essa vibração moral e física, fonte das mais deliciosas volúpias; a ele me entrego. Plenamente convencido de que a existência do criador é um absurdo revoltante no qual nem mesmo as crianças acreditam mais, desde cedo me coloquei acima das quimeras da religião. […] Recebi essas inclinações da natureza e irritá-la-ia se a elas resistisse; se ela as fez malévolas, é porque se tornaram necessárias a seus desígnios. Sou apenas uma máquina em suas mãos, que ela move a seu bel-prazer e não há crime meu que não lhe sirva; quanto mais os inspira em mim, mais ela precisa deles: eu seria um tolo, caso lhe resistisse.”

 

Leia aqui a obra completa, em francês.