Arquivo da tag: rubem fonseca

Relendo “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca (José Castello)

“Fixo-me em “Feliz ano novo”, o conto que empresta título ao já lendário livro que Rubem Fonseca, cuja obra vem sendo relançada pela editora Agir, publicou em 1975. Não só, provavelmente, é o072412guns mais cruel relato da coletânea, mas uma das narrativas mais violentas produzidas pela literatura brasileira dos anos 1970. O conto guarda uma estranha síntese dos métodos da ditadura, que se espalharam pela entranhas da sociedade brasileira na ordem de uma peste — o livro de Fonseca seria censurado no ano seguinte ao seu lançamento. Antes de tudo, a violência, arbitrária, indiferente ao sentido, cruel que, na narrativa de Fonseca, deixa os cárceres do poder para penetrar na penumbra do dia a dia e se transformar em um método de ação. Contra a violência, mais violência. Contra a miséria, mais miséria. O método nefasto da duplicação e da retaliação. (…)”

Leia o ensaio completo

 (*) Esse texto foi publicado originalmente no suplemento “Prosa”, de O GLOBO, no sábado 22/03/2014. Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


O “monstro” de carne e osso em “Henri”, de Rubem Fonseca (Cristiane Vieira da Graça Cardaretti)

“O sujeito que provoca o horror, que será analisado no presente trabalho, é de carne e ossbloody-scratcho. Diferente dos monstros sobrenaturais, ele é um sujeito comum, desprovido de traços que possam denunciá-lo como um monstro aterrorizador, fato que acaba por velar seu poder letal. O autor escolhido para o presente trabalho é, em minha opinião, o maior criador de monstros de carne e osso de nossa literatura: Rubem Fonseca. Contemporâneos do mineiro Fonseca dizem que, na época em que ele trabalhava como comissário policial, os agentes operavam mais como juízes de paz, apartadores de briga, do que autoridades. Fonseca, portanto, enxergava debaixo das definições legais, as tragédias humanas. E, talvez por esse motivo, com sua vasta experiência, haja trazido para as páginas da ficção crimes de profunda violência e crueldade.”

Leia o ensaio completo


O que há de monstruoso em “Passeio Noturno” e “O Psicopata Americano?” – uma análise do medo artístico em Rubem Fonseca e Bret Easton Ellis (Luciano Cabral)

“Partindo de uma perspectiva de comparação entre o conto ‘Passeio Noturno’, de Rubem Fonseca, e o romance O Psicopata AmericanoBlood-Splatter, de Bret Easton Ellis, o presente trabalho tentará refletir sobre as estratégias narrativas utilizadas nestas obras para gerar o medo artístico. Para tanto, utilizarei os conceitos de monstruosidade desenvolvidos por Jeffrey Jerome Cohen, Noël Carroll e Stephen King, assim como os ensaios de Zygmunt Bauman e Fred Botting. Um jovem negociante de Wall Street e um ordinário pai de família encarnam assassinos letais nestas obras, mas a simples presença deles não os torna monstros. O que, então, os faria monstruosos?”

Leia o ensaio completo


A moral mínima de Rubem Fonseca (João Gabriel Lima)

“Poucos escritores na literatura brasileira abordaram o problema da violência quanto Rubem Fonseca. Críticos importantes legaram-lhe o adjetivo de ‘brutalista’ ou ‘realista feroz’, entre eles Antônio Cândido e Alfredo Bosi. É indiscutível que as histórias de Fonseca – em especial em seu livro Feliz ano novo psychoknife-294x300– apresentam a violência através das ações de seus personagens. Não obstante, antes de acusar com igual violência o autor de tais histórias, é preciso ter em conta o que alcançam esses escritos naquele que lê. Esse artigo deseja demonstrar que, longe de escrever histórias para incitar um leitor cruel, Rubem Fonseca é, na verdade, um escritor ético, cuja obra tem o propósito de interromper os impulsos destrutivos através da literatura. O valor de sua obra não está apenas na re-encenação literária da violência urbana, tal como parece apontar o consenso crítico sobre sua obra, mas em uma ambição – tão modesta quanto verdadeira – de impedir que o mal se apresente em forma de violência. Nosso percurso aqui será partir do livro Feliz ano novo de Rubem Fonseca, localizando a resposta da crítica literária à violência fonsequiana; depois, para considerar se há um propósito maior para essa violência, iremos até os escritos de Jean-Jacques Rousseau; ao fim, então, retornaremos à análise de Rubem Fonseca para considerar essa hipótese à luz das contribuições psicanalíticas.”

Leia o ensaio completo


Quem é esse desconhecido que provoca medo? – O medo do outro no conto “Passeio Noturno”, de Rubem Fonseca (Luciano Cabral)

“(…) O fato é que as nostálgicas batalhas dos séculos passados deram lugar às guerrilhas urbanas e às revoltas locais, que parecem, num primeiro momento, surgir sem motivo aparente. Os conflitos 130407211558-largeantes graduais e esporádicos tornaram-se, repentinos, diários, quase perpétuos, em que o fim de um combate assinala o início de outro. Os projetos coletivos (que atraíam multidões ao ponto de colocarem povos e países em lados opostos) perderam o sentido e cederam espaço aos projetos particulares, com pretensões muito menores: os desejos, antes comuns, agora são extremamente individuais. Os envolvidos em combates não são mais (ou apenas) soldados selecionados institucionalmente, mas, antes, são pessoas comuns, carregadas dos mais diversos e privados desejos. A guerra agora é de um indivíduo contra outro. (…)”

Leia o ensaio completo


Quem tem medo do Cobrador? – a sociedade e a literatura contemporânea no conto ‘O Cobrador’, de Rubem Fonseca (Luciano Cabral)

“(…) O que fez Rubem Fonseca foi criar um personagem que cobra o que não queremos dar facilmente, por medo de perder nossos privilégios. Assim, o Cobrador reage à nossa inércia de forma cruel e violenta. Não conseguimos mais pensar o mundo sem computadores e internet, sem automóveis, sem celulares e sem televisão; e também não podemos mais pensá-lo sem cercas e muros, sem presídios, sem fome e desigualdade, sem privilégios e sem pobreza. Do mesmo modo que a sociedade contemporânea, infelizmente, não consegue mais viver sem ter medo de cruzar com o Cobrador, a literatura brasileira não consegue ficar indiferente a ele.”

Leia o ensaio completo


O Cobrador (Rubem Fonseca)

“Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.
A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o para­lama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante, zunindo, fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.”

Leia o conto completo