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“Minha mãe me matou, meu pai me comeu”: a crueldade nos contos de fadas (Karin Volobuef)

“Os contos de fadas, ou contos maravilhosos, têm como constante a presença de personagens malignos, a começar pelas bruxas, madrastas mal-intencionadas e o lobo mau. Fora isso, são inúmeros os episódios de brutalidade em que mãos são decepadas (‘A moça sem mãos’), olhos furados (‘Cinderela’), cabeças cortadas (‘O rgirl-with-no-hands-by-h-j-ford-4ei da montanha de ouro’) e corpos esquartejados (‘O camarada Lustig’). Para completar, incesto (‘Bicho peludo’), canibalismo (‘O junípero’), pacto com o demônio (‘Pele de Urso’) e outros temas ligados à maldade ou torpeza povoam diversos contos. Ao contrário da opinião comumente difundida, as narrativas que circularam pela boca do povo muitas vezes tratam de assuntos escabrosos e chocantes. Trata-se de algo hoje desconhecido da maioria dos leitores de contos de fadas, uma vez que muitas narrativas chegam ao público em adaptações que expurgam as passagens sanguinolentas. Além disso, contos como ‘O pobre rapaz na sepultura’ ou ‘História do jovem que saiu pelo mundo para aprender o que é o medo’ sequer costumam ser reeditadas. Os filmes de Walt Disney, por seu turno, alteraram bastante os enredos e, assim, colaboraram extensivamente para cunhar a ideia de historias ingênuas e inocentes. Em vista desse quadro, o objetivo do presente trabalho é abordar o viés ‘cruel’ e ‘assustador’ dos contos de fadas, buscando discutir sua participação no imaginário popular e sua recepção pelo público adulto e infantil.”

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O horror em literatura: uma análise de “O vampiro da Granja Croglin”, de Augustus Hare (Alessandra Casati)

“(…) O conto O Vampiro da Granja Croglin, de Augustus Hare, é uma narrativa que se encaixa no que podemos genericamente chamar de literatura do medo, na medida em que podemos facilmente identificar aspectos característicos da literatura de horror: a ambientação gótica, a presença da figura do monstro e a sua perversão, a repulsa sentida pelos personagens, entre outras figuras e imagens que têm como principal intenção provocar o afeto de horror em quem a lê. (…)”

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O bebê de tarlatana rosa (João do Rio)

“(…) O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal estar curioso, um estado de inibição esquisito. — Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. — Disfarça sim! — Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente —uma caveira com carne… (…)”

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A mutilação como meio de sobrevivência na ficção de Chuck Palahniuk (Claudio Vescia Zanini)

“O trabalho consiste em uma análise comparativa de três romances ficcionais de Chuck Palahniuk, cuja característica predominante é a crítica à sociedade de consumo pós-moderna e a dificuldade do indivíduo de interagir em harmonia com o mundo, as pessoas que o cerScreen Shot 2015-04-03 at 7.15.08 PMcam e consigo. A base principal para os questionamentos aqui propostos é a presença e a importância da mutilação no corpus de análise, que é formado pelos romances Clube da Luta (1996), Monstros Invisíveis (1999) e Assombro (2005). As questões que norteiam o estudo aqui proposto se referem à motivação e às formas de obtenção da mutilação corporal das personagens, e a conclusão leva a crer que o ato de mutilar a si a e aos outros, ainda que associado a tabus e crimes pela maioria das pessoas, é a única maneira que as personagens de Palahniuk encontram para resolver os seus problemas”.

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Bocatorta (Monteiro Lobato)

“(…) Bocatorta excedeu a toda pintura. A hediondez personificara-se nele, avultando, sobretudo, na monstruosa deformação da boca. Não tinha beiços, e as gengivas largas, violáceas, com raros cotos de dentes bestiais fincados às tontas, mostravam-se cruas, como enorme chaga viva. E torta, posta de viés na cara, num esm054gar diabólico, resumindo o que o feio pode compor de horripilante. Embora se lhe estampasse na boca o quanto fosse preciso para fazer daquela criatura a culminância da ascosidade, a natureza malvada fora além, dando-lhe pernas cambaias e uns pés deformados que nem remotamente lembravam a forma do pé humano. E olhos vivíssimos, que pulavam das órbitas empapuçadas, veiados de sangue na esclerótica amarela. E pele grumosa, escamada de escaras cinzentas. Tudo nele quebrava o equilíbrio normal do corpo humano, como se a teratologia caprichasse em criar a sua obra-prima. (…)”

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Terror, Horror e Repulsa: Stephen King e o cálculo da recepção (Julio França)

“[…] creio que se possa dizer que as respostas do escritor americano às duas perguntas passam pela compreensão do próprio título do livro: “Danse macabre” é uma referência implícita a uma alegoria da baixa Idade Média que simboliza a universalidade da morte: independentemente do estrato social – reis, belos, papas, jovens – a morte une e iguala a todos. O misté

rio da morte, seu caráter tão inexorável quanto insondável, é a mola mestra da narrativa de horror. Sobre essa região da experiência humana, a ciência, o discurso da verdade demonstrada, pouco tem a dizer. Nos desvãos entre a fé religiosa e o conhecimento científico, a narrativa de horror encontra seu hábitat ideal. […]”

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