Arquivo da tag: poesia

A face disforme da Belle époque: o monstruoso e a cosmovisão de Eu, de Augusto dos Anjos, e de Urupês, de Monteiro Lobato (Fabiano Rodrigo da Silva Santos)

Resultado de imagem para belle epoque macabra“O objetivo de nossas considerações é investigar os aspectos de Eu (1912), de Augusto dos Anjos, e de Urupês (1918), de Monteiro Lobato, que atestam uma cosmovisão sensível ao monstruoso e que se colocam em posição crítica diante dos modelos estéticos e ideológicos da Belle Époque brasileira. Publicados na década de 1910, época de modernização do país sob ideais de progressismo, eugenia e civilidade burguesa, Eu (livro de poesias) e Urupês (coletânea de contos) debruçam-se sobre aspectos evitados pela literatura oficial daqueles tempos, tais como as contradições sociais do país, as marcas de barbárie que se imprimem na história e o lado sórdido da condição humana. Tais temas ganham, nas obras, forma literária a partir de uma linguagem franca e, eventualmente, brutal que recorre ao grotesco e à ironia para efetivar uma estética de choque cuja máxima realização é o motivo do monstro. O corpo monstruoso em Eu e em Urupês (em particular no conto “Bocatorta”) converte-se em privilegiada alegoria da história, expressando a orientação crítica das duas obras em relação ao contraditório processo de modernização do país.”

Leia o ensaio completo aqui.

(*)Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Outras Travessias, n. 22 (2016). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


Patágios Fúnebres: uma leitura vampírica de “Otávio e Branca” (Cid Vale Ferreira)

“(…) Em sua “primeira mocidade”, João Cardoso ouviu estarrecido o jurisconsulto Antônio Joaquim Rigothic-castle-17209bas narrar-lhe Leonor, balada terrífica de Gottfried August Bürger que teve longa sequela em autores como Matthew Lewis, responsável por imbuí-la no imaginário gótico inglês. Disposto a se embrenhar pelo estilo, o santista redige Otávio e Branca ou A Maldição Materna, tragédia familiar que ecoa o moralismo macabro de Bürger numa ambientação em que abundam, da estrutura às menores filigranas, elementos típicos das narrativas góticas medievalistas. (…)”

Leia o ensaio completo


Octavio e Branca ou A Maldição Materna (João Cardoso de Menezes e Souza)

Meia noite soou! – Nos ares trêmulos

Fúnebre ecoa o som do campanário

De horror gelando o coração dos vivos!

Meia noite soou! – Por toda a parte

Silêncio sepulcral desdobra as asas!

Nem estrondo de andar, que trilhe as ruas

Nem brisa, que murmure brandamente!

Diríeis desmaiada a natureza

Ao pavoroso badalar do bronze.

Só ousa violar mudez tão erma

Do pássaro da noite o guincho agudo,

E uivos de cães, quiçá correndo em cata

De maligno Vampiro redivivo.

Qual lâmpada em dossel de azul safira,

Muda e serena a lua o céu perlustra,

E as nuvens, como bandos d’alvas garças,

De quando em quando a face lhe sombreiam.

Paleja ao longe a torre esbranquiçada,

Como enorme fantasma erguendo a lousa

Envolto no sudário do sepulcro.

Era a hora em que o negro anjo da morte,

Seguido d’um cortejo de finados,

Ergue co’a espada as lápides dos mortos,

E, sobre um solo de escamados ossos,

Planta o seu estandarte funerário.

(…)

Leia aqui o poema completo


Victor Silva, poeta decadentista (Fernando Monteiro de Barros)

“(…) É principalmente pelo viés do gótico que se dá o liame entre Romantismo e Decadentismo, liame este proficuamente analisado por Mario Praz (1988, 1996), um dos principais teóricos da estética de Wilde e Huysmans. O gótico literário de fins do século XVIII e começo do século XIX é um estilo que, aaerosdecadente290mais que nenhum outro talvez, caracteriza-se, além da atmosfera aterrorizante, pelo cenário e pela decoração (WILLIAMS, 1995, p. 14), que lhe conferem um caráter de teatralidade e simulacro. Cristalizado em clichês que chegaram até o nosso século com os vampiros e castelos mal-assombrados do cinema e da televisão, o esteticismo gótico, antes de sua popularização midiática, já era massificado nos folhetins ingleses de meados do século XIX e no teatro de variedades e vaudeville franceses da década de 1820 (LECOUTEUX, 2005, p. 21), que popularizaram a tradução francesa do conto The Vampyre (1819) de John Polidori, texto-marco da literatura do gênero. Assim, ao fazerem uso de imagens já em fins do século XIX tão marcadas pelo chavão, os escritores decadentistas não apenas obtinham o tom mórbido de que tanto gostavam como também exibiam acintosamente as marcas da pura impostação de seu texto literário, tecido sob o signo do artifício. (…)”

Leia o ensaio completo