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Nunca aposte sua cabeça com o diabo (Edgar Allan Poe)

“Era um pobre-diabo que vivia como um cão, é verdade, e foi de uma morte de cão que morreu; mas não era digno de censura por causa de seus vícios.

Procederam duma deficiência natural da mãe dele. Ela fez o que pôde para castigá-lo, enquanto ainda pequeno, porque  os deveres para sua bem ordenada mente eram sempre prazeres, e as crianças, como as postas de carne dura ou as modernas oliveiras gregas, são as melhores de se bater. Porém, pobre mulher! tinha a desgraça de ser canhota e uma criança surrada canhotamente o mais que podia ficar era canhotamente impune. O mundo gira da direita para a esquerda. Não se deverá, pois, açoitar uma criança da esquerda para a direita. Se cada golpe, na direção própria, lança fora uma má propensão, segue-se que cada pancada, numa direção oposta, soca para dentro sua parte de maldade. Estive muitas vezes presente aos castigos de Toby e, mesmo pelo modo com que era escoceado, podia perceber que ele se estava tornando cada vez pior, dia a dia. Afinal vi, com lágrimas nos olhos, que não havia quase esperança alguma a respeito do velhaco, e um dia, quando fora ele surrado até ficar de cara tão preta que poderia ser tomado como um africaninho e nenhum efeito se produzira, a não ser o de fazê-lo retorcer-se até desmaiar, não pude mais conter-me e, caindo de joelhos imediatamente, ergui a voz para profetizar a sua ruína.”

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Berenice (Edgar Allan Poe)

“O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia saído do aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! E não queria sair o espectro branco de seus dentes lívidos. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem uma pinta no esmalte, nem uma falha nas sbereniceuas pontas, que aquele breve tempo de seu sorriso não houvesse gravado na minha memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!… Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Nos múltiplos objetos do mundo exterior, só pensava naqueles dentes. Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação.”

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O retrato oval (Edgar Allan Poe)

“Esse gesto, porém, produziu um efeito totalmente inesperado. Os raios das numerosas velas (pois havia muitas) caíam agora dentro de um nicho da sala que até então estivera mergulhado na intensa sombra lançada por uma das colunas da cama. E assim vi, em plena luz, um retrato até então despercebido. Era o retrato de uma jovem no alvorecer da feminilidade. Olhei rapidamente para o retrato e depois fechei os olhos. Por que isso fizera, eu mesmo não o percebi a princípio. Mas, enquanto minhas pálpebras  permaneciam fechadas, resolvi na mente a razão de assim ter feito. Era um movimento impulsivo, para ganhar tempo de pensar, para certificar-me de que minha vista não me iludira, para acalmar e dominar a fantasia, forçando-a a uma contemplação mais serena e segura.”

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Casa e Família: uma simbiose do mal em Poe e Lúcio Cardoso (Luiz Eduardo da Silva Andrade)

“Propomos neste ensaio uma análise comparada do espaço em “A queda da casa de Usher” (1940), de Edgar Allan Poe, e Crônica da casa assassinada (1958), de Lúcio Cardoso. As narrativas retratam a decadência econômica e moral de duas famílias tradicionais que mantêm uma relação simbiótica com as suas moradias, dessa forma a ruína das casas metaforiza a desagregação familiar. As construções são o objeto mais valioso na memória das famílias Usher e Meneses. Para nós, o estudo do espaço arruinado revela uma crítica ao tradicionalismo da aristocracia patriarcal nos respectivos países e épocas. Sendo assim, a leitura da casa com o seu mobiliário que empreendemos vai de encontro às ideias de Bachelard (1978) e Baudrillard (2000), pois que ambos, respectivamente, consideram a casa e os objetos como símbolos de conforto, proteção e harmonia familiar.”

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A literatura do medo nos contos de Clarice Lispector (Carolina Luiza Prospero)

b314534e31677303d32e13e05e0bd8f4e1406a1d“A presente pesquisa busca analisar o medo nos contos de Clarice Lispector. Indícios do interesse da autora por esta temática podem ser observados em todas as vertentes de sua produção artística, o que nos leva a refletir sobre como ela se manifesta e como conduz a caracterização e a ação das personagens. Para isso, investigaremos quinze contos selecionados da obra de Lispector que, cronologicamente, contemplam toda a sua trajetória de contista. O conceito freudiano de Unheimlich e a relação que o filósofo Kierkegaard estabelece entre medo e liberdade são algumas das bases teóricas deste trabalho. Além disso, teremos como elemento comparativo a literatura de horror sobrenatural que se constrói a partir do século XVIII – concentrando-nos principalmente nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Algernon Blackwood.”

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Prefácio de “Contos do Grotesco e Arabesco” (Edgar Allan Poe)

40“Ver-se-á que os termos “grotesco” e “arabesco” indicam com bastante precisão o teor dominante dos contos aqui publicados. Mas, se durante dois ou três anos escrevi 25 histórias curtas cujo caráter geral pode ser definido com tanta brevidade, não é justo – ou, em todo caso, não é verdadeiro – inferir daí que alimento um especial ou enorme gosto ou propensão por esse tipo de texto. (…)”

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Alguns aspectos da presença de Edgar Allan Poe no Brasil (Denise Bottmann)

“(…) A primeira publicação de contos de Poe no Brasil, até onde tenho notícia, é a coletânea chamada Novellas extraordinarias, publicada por H. Garnier Livreiro-Editor. O volume não traz a data de pubpoelicação, mas o cadastro do exemplar depositado no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal registra o ano de 1903 (Poe, c.1903).

O livro traz em sua página de rosto, logo abaixo do título, a especificação ‘(Traducção Brasileira)’, sem citar, porém, o nome do tradutor. A coletânea traz dezoito contos de Poe, além do texto ‘O corvo (Gênese de um poema)’, a versão em prosa que Charles Baudelaire fez de The Raven. Esse elemento, por si só, já bastaria para sugerir que se trata de uma tradução feita a partir do francês. (…)”

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