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O espaço gótico em “A máscara da morte rubra” (Luciana Moura Colucci de Camargo e Ozíris Borges Filho)

a-mc3a1scara-da-morte-rubra“Neste trabalho, analisamos o conto de Edgar Allan Poe, A máscara da morte rubra, focalizando principalmente a categoria do espaço. Como suporte teórico, partimos da proposta da Topoanálise que foi desenvolvida a partir das idéias de Bachelard, Iuri Lotman, Osman Lins entre outros. Juntamente com a Topoanálise, também recorremos ao ensaio de Poe intitulado Filosofia do mobiliário. Em nossa análise, verificamos que o percurso espacial do texto se divide principalmente pela coordenada da interioridade, dividindo-se então em exterior vs. interior. Temos o país como um espaço englobante e externo e, como espaço englobado e interior aparece a abadia para onde o duque foge com sua corte. A partir dessa espacialidade, a narrador nos apresenta um enredo politópico que tematiza principalmente a fugacidade da vida e a inexorabilidade da morte.”

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A máscara da morte rubra (Edgar Allan Poe)

“Que voluptuosa cena a daquela mascarada! Mas antes descrevamos os salões em que ela se desenrolava. Era uma série imperial de sete salões. Em muitos palácios, porém, esses salões formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do príncipe pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas do salão. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul – e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada. O quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder a das decorações. As vidraças, ali, eram rubras – de uma violenta cor de sangue.”

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O destino errante de “Paraíso Perdido”, de John Milton, no conto “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”, de Edgar Allan Poe (Miriam Andrade)

“ […] este artigo propõe um estudo das relações possíveis e pertinentes entre o gótico na literaturanever_bet_the_devil_your_head_by_watadrag-d48yglx e o insólito, sendo o caráter do insólito lido, segundo Todorov, como estruturador. Nessa perspectiva, o gótico e o insólito se fundem em uma estética que frustra o comum e o ordinário e se abre ao sobrenatural. Essa estética é estudada no diálogo entre a obra de Milton, Paraíso Perdido, e o conto de Edgar Allan Poe, “Nunca aposte sua cabeça com o diabo: conto moral”. Ao dialogar com Milton, Poe não legitima ou reitera o poder da obra do poeta inglês, mas estabelece com ela uma relação de suplementaridade e, por conseguinte, assume seu destino errante, ou sua herança literária, tanto nos aspectos góticos, como dos insólitos.”

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Nunca aposte sua cabeça com o diabo (Edgar Allan Poe)

“Era um pobre-diabo que vivia como um cão, é verdade, e foi de uma morte de cão que morreu; mas não era digno de censura por causa de seus vícios.

Procederam duma deficiência natural da mãe dele. Ela fez o que pôde para castigá-lo, enquanto ainda pequeno, porque  os deveres para sua bem ordenada mente eram sempre prazeres, e as crianças, como as postas de carne dura ou as modernas oliveiras gregas, são as melhores de se bater. Porém, pobre mulher! tinha a desgraça de ser canhota e uma criança surrada canhotamente o mais que podia ficar era canhotamente impune. O mundo gira da direita para a esquerda. Não se deverá, pois, açoitar uma criança da esquerda para a direita. Se cada golpe, na direção própria, lança fora uma má propensão, segue-se que cada pancada, numa direção oposta, soca para dentro sua parte de maldade. Estive muitas vezes presente aos castigos de Toby e, mesmo pelo modo com que era escoceado, podia perceber que ele se estava tornando cada vez pior, dia a dia. Afinal vi, com lágrimas nos olhos, que não havia quase esperança alguma a respeito do velhaco, e um dia, quando fora ele surrado até ficar de cara tão preta que poderia ser tomado como um africaninho e nenhum efeito se produzira, a não ser o de fazê-lo retorcer-se até desmaiar, não pude mais conter-me e, caindo de joelhos imediatamente, ergui a voz para profetizar a sua ruína.”

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Berenice (Edgar Allan Poe)

“O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia saído do aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! E não queria sair o espectro branco de seus dentes lívidos. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem uma pinta no esmalte, nem uma falha nas sbereniceuas pontas, que aquele breve tempo de seu sorriso não houvesse gravado na minha memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!… Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Nos múltiplos objetos do mundo exterior, só pensava naqueles dentes. Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação.”

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O retrato oval (Edgar Allan Poe)

“Esse gesto, porém, produziu um efeito totalmente inesperado. Os raios das numerosas velas (pois havia muitas) caíam agora dentro de um nicho da sala que até então estivera mergulhado na intensa sombra lançada por uma das colunas da cama. E assim vi, em plena luz, um retrato até então despercebido. Era o retrato de uma jovem no alvorecer da feminilidade. Olhei rapidamente para o retrato e depois fechei os olhos. Por que isso fizera, eu mesmo não o percebi a princípio. Mas, enquanto minhas pálpebras  permaneciam fechadas, resolvi na mente a razão de assim ter feito. Era um movimento impulsivo, para ganhar tempo de pensar, para certificar-me de que minha vista não me iludira, para acalmar e dominar a fantasia, forçando-a a uma contemplação mais serena e segura.”

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Casa e Família: uma simbiose do mal em Poe e Lúcio Cardoso (Luiz Eduardo da Silva Andrade)

“Propomos neste ensaio uma análise comparada do espaço em “A queda da casa de Usher” (1940), de Edgar Allan Poe, e Crônica da casa assassinada (1958), de Lúcio Cardoso. As narrativas retratam a decadência econômica e moral de duas famílias tradicionais que mantêm uma relação simbiótica com as suas moradias, dessa forma a ruína das casas metaforiza a desagregação familiar. As construções são o objeto mais valioso na memória das famílias Usher e Meneses. Para nós, o estudo do espaço arruinado revela uma crítica ao tradicionalismo da aristocracia patriarcal nos respectivos países e épocas. Sendo assim, a leitura da casa com o seu mobiliário que empreendemos vai de encontro às ideias de Bachelard (1978) e Baudrillard (2000), pois que ambos, respectivamente, consideram a casa e os objetos como símbolos de conforto, proteção e harmonia familiar.”

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