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O Gótico e a presença fantasmagórica do passado (Júlio França)

Resultado de imagem para casa mal assombrada“O Gótico consolidou-se como uma tradição artística que codificou um modo de figurar os medos e de expressar os interditos de uma sociedade. O que se chama de literatura gótica é, pois, a convergência entre uma percepção de mundo desencantada – com as cidades modernas; com o futuro que o progresso científico nos reserva; com o papel insignificante do homem no cosmos; com a própria natureza dessacralizada do homem – e uma forma artística estetizada e convencionalista. Entre os muitos elementos convencionais dessa tradição, três se destacam: o locus horribilis, a personagem monstruosa e a presença fantasmagórica do passado. O objetivo desse artigo é descrever o último desses aspectos, a fim de compreender sua motivação cultural, sua relação com a visão de mundo gótica e suas consequências para a estrutura narrativa desse tipo de ficção. Sendo um fenômeno moderno, a literatura gótica carrega em si as apreensões geradas pelas mudanças ocorridas nos modos de percepção do tempo a partir do século XVIII. A aceleração do ritmo de vida e a urgência de se pensar um futuro em constante transformação promoveram a ideia de rompimento da continuidade entre os tempos históricos. Os eventos do passado não mais auxiliam na compreensão do que está por vir: tornam-se estranhos e potencialmente aterrorizantes, retornando, de modo fantasmagórico, para afetar as ações do presente.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


O gótico literário no Brasil: Lygia Fagundes Telles (Camila Mello)

“(…) São os mistérios, os medos, as lembranças, os desejos e os fantasmas que rondam essa família que vão atribuir-lhe um caráter gótico, que vão explicitar fatos reprimidos e instigar a sensação do unheimlich. A questão da volta inconstante do passado na vida dos personagens como corpo assombrador, fantasma incansável, também é recorrente em outras narrativas góticas. Em Ciranda, o retorno do passado fica mais evidente na segunda parte do romance: antes de Virgínia sair do internato para retornar à casa de Natércio, ela rasga várias cartas como símbolo da superação de lembranças dolorosas. Além disso, afirma não ter memória sobre eventos da infância. Contudo, no contato com o pai, as irmãs, e os amigos, Virgínia percebe que o passado não havia sido realmente esquecido: ‘Mortos e vivos, voltaram todos (…) estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral’ (Telles, 1998: 100-101). O terror do passado é tal, que um dos motivos que a leva a se entregar à Rogério é que ele não trazia nenhuma lembrança, pois não fazia parte da ciranda da juventude. Talvez o maior motivo para tantas fugas de Virgínia – o internato, as saídas repentinas, a vontade de morrer, a viagem pelo mundo – seja exatamente a dificuldade de lidar com os fantasmas do passado, com os sentimentos que podem reaparecer e mostrar feridas. (…)”

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Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)

“(…) Deixou-se vestir passivamente. Adiantara-se muito, adiantara-se demais. ‘Agora ela sabe que eu sei.’ Cravou em Luciana o olhar aflito. A fisionomia da moça continuava impassível. ‘Ela finge que não se importa mas está com vontade de me esganar.’ Quando sentiu no pescoço seus dedos frios abotoando-lhe a gola, teve um arrepio misturado a uma estranha sensação de gozo. Viu-se morta, com a grinalda da sua primeira comunhão. Trazidas por Frau Herta, vestidas de preto, chegavam Bruna e Otávia debulhadas em pranto. ‘Nós te desprezamos tanto e agora você está morta!’ Aos pés do caixão, quase desfalecido de tanto chorar, o pai lamentava-se: ‘Era a minha filhinha predileta, a caçula, a mais linda das três!’. Muito pálido dentro da roupa escura, Conrado apareceu com um ramo de lírios. ‘Ia me casar com ela quando crescesse.’ Alguém se aproximou de Frau Herta. ‘Mas e onde está Daniel, por que não veio ao enterro?’ E Frau Herta, em voz bem alta, para quem quisesse ouvir: ‘Ele fugiu com Luciana, fugiram os dois, a estas horas estão se divertindo juntos, rindo e cantando era uma vez duas ninfas que moravam num bosque…’ (…)”

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