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O Gato Preto (Edgar Allan Poe)

“Certa noite, de volta a casa, bastante embriagado, de uma das tascas dos subúrbios, supus que o gato evitava minha presença. Agarrei-o, mas, nisto, amedrontado  com a minha violência, deu-me ele leve dentada na mão. Uma fúria diabólica apossou-se instantaneamente de mim. Cheguei a desconhecer-me. Parecia que minha alma original havia abandonado dBlack-Cate repente o corpo e uma maldade mais do que satânica, saturada de álcool, fazia vibrar todas as fibras de meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, deliberadamente, arranquei-lhe um dos olhos da órbita! Coro, abraso-me, estremeço ao narrar a condenável atrocidade.”

Leia aqui o conto completo, em inglês

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William Wilson (Edgar Allan Poe)

“(…) Uma noite, depois do encerramento de meu quinto ano na escola e imediatamente após a altercação acima mencionada, verificando que todos imergiam no sono, levantei-me da cama e, de lâmpada na mão, deslizei através de uma imensidade de estreitos corredores do meu quarto para o de meu rival. Longamente planejara uma dessas peças de mau-gosto, à custa dele, em que até então eu tão constantemente falhara. Era, agora, minha intenção pôr o plano em prática e resolvi fazê-lo sentir toda a extensão da malícia de que eu estava imbwilliam_wilson___edgar_allan_poe_by_mgkellermeyer-d6px8cruído. Tendo alcançado seu quartinho, entrei silenciosamente, deixando a lâmpada do lado de fora, com um quebra-luz por cima. Avancei um passo e prestei ouvidos ao som de sua respiração tranquila. Certo de que ele estava dormindo, voltei, apanhei a luz e com ela me aproximei de novo da cama. Cortinados fechados a rodeavam; prosseguindo em meu plano, abri-os devagar e quietamente, caindo então sobre o adormecido, em cheio, os raios brilhantes de luz, ao mesmo tempo que meus olhos sobre seu rosto. Olhei, e um calafrio, uma sensação enregelante no mesmo momento me atravessou o corpo. Meu peito ofegou, meus joelhos tremeram, lodo o meu espírito se tornou presa de um horror imotivado, embora intolerável. Arquejando, baixei a lâmpada até quase encostá-la no seu rosto. Eram aquelas … aquelas as feições de William Wilson? Vi, de fato, que eram as dele, mas tremi como num acesso de febre, imaginando que não o eram. Que havia em torno delas para me perturbarem desse modo? Contemplei, enquanto meu cérebro girava com uma multidão de pensamentos incoerentes. Não era assim que ele aparecia – certamente não era assim – na vivacidade de suas horas despertas. O mesmo nome! Os mesmos traços pessoais! O mesmo dia de chegada ao colégio! E, depois, sua obstinada e incompreensível imitação de meu andar, de minha voz, de meus costumes, de meus gestos! Estaria, em verdade, dentro dos limites da possibilidade humana que o que eu então via fosse, simplesmente, o resultado da prática habitual dessa imitação sarcástica? Horrorizado, com um tremor crescente, apaguei a lâmpada, saí silenciosamente do quarto e abandonei imediatamente os salões daquele velho colégio, para neles nunca mais voltar a entrar. (…)”


Esfinge (Coelho Neto)

“(…) Atirei-me ao divã apertando aflitamente, com as mãos geladas, a cabeça aturdida. Sentia-a crescer, inchar túmida, bojando como um balão e, de todos os pontos da sala, em cascalhada irônica, esfuziavam risinhos de mofa: era uma zombaria geral, o chasqueio das coisas em assuada que me enervava e retransia num grandFear-and-Desire-Illustration-Boris-Pelcer-4657e, inenarrável medo.

Oh! O medo!… Ele vinha como uma inundação. Eu sentia-o chegar, subir sensível, palpável como as grossas e escuras águas revoltas de uma enchente. Um prurido de dormência formigava-me nos pés que esfriavam regelando como de pedra.

O medo chegou-me aos joelhos pesado, inteiriçante, de ferro, cingiu-me em anéis constritos, ciliciando-me o ventre, entalando-me o peito e o coração pos-se a bater sôfrego, aflitíssimo como forçando as grades da prisão para evadir-se. A garganta travou-se-me jugulada, o trismo aperrou-me as mandíbulas e a minha respiração, aos sorvos, era a de agonizante, e rascava. (…)”

Leia aqui o romance completo


Crianças à venda. Tratar aqui (Rosa Amanda Strausz)

skeletor“(…) Intrigada com aquilo, Simara foi até a casa do padre e pediu-lhe emprestada sua lente de aumento. Já tinha visto o objeto algumas vezes depois das aulas de catecismo. Parecia mágico, com seu poder de ampliar pequenos detalhes. Quando era menor, adorava pegar a lente e observar a ponta de seu polegar, descobrindo as finas linhas que desenhavam redemoinhos em seus dedos. Mas, agora, não havia tempo para brincar. Botou a foto sob o vidro da lente e examinou-a detidamente. Nem precisou procurar muito. Bastou-lhe focalizar os olhos do irmão para encontrar a explicação de sua expressão vazia: estavam furados. No lugar das córneas, havia apenas dois buracos negros, redondos e perfeitos. Com um grito apavorado, Simara chamou o padre. O homem fez o sinal-da-cruz e prontificou-se a acompanhar a menina até a residência do casal que tinha levado Fabiojunio embora. (…)”

Compre o livro Sete ossos e uma maldição, de Rosa Amanda Strausz