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Ausência, silêncio e morte: a nação impossível na obra A menina morta, de Cornélio Penna (Maria Ângela de Araújo Resende)

Absence“[…] considerando-se a natureza do método, e mesmo alertando para o perigo dos rótulos, Costa Lima se vale do binarismo como um dos procedimentos de análise, partindo dos modos de representação do masculino e do feminino e suas trocas simbólicas nos espaços onde se desenvolve a trama. Para isto, contrapõe ao Grotão – incluindo a fazenda autárquica, os campos cultivados e a floresta que a cerca – a Corte, urbana e europeizada, traçando um desenho espacial marcado pela dicotomia entre os caminhos que partem da casa-grande. Um deles, o caminho da Corte, signo do caminho do masculino, se constitui através das personagens: o Comendador, o Barão, um dos filhos dos senhores, que, após um breve retorno, abandona o Grotão e passa a viver definitivamente na Corte. O outro, o caminho da clareira, metaforizando o caminho do feminino nas figuras de Mariana, a menina morta e Carlota. Se levarmos em conta essa relação, poderíamos nos valer de um plano histórico e de um plano mítico que irão dar sustentação, em parte, à proposição do autor, uma vez que ele estabelece um sistema de oposições entre natureza e cultura. O espaço da mata também funciona como contraponto ao espaço da fazenda e de seus moradores, também eles divididos, hierarquicamente: o Senhor e a Senhora, as parentas agregadas (D. Virgínia., D. Inacinha, Sinhá Rola e Celestina) o administrador português, a governanta alemã, os escravos de dentro e os escravos de fora, e são elementos importantes para identificarmos a passagem do real ao simbólico e dos fantasmas expressos nas formas de interdição.”

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Os limites do medo em “A menina morta”, de Cornélio Penna (Luiz Eduardo da Silva Andrade)

“A proposta deste texto é analisar as representações do medo em A menina mortadeadgirl (1954), almejando uma reflexão crítica e histórico-social direcionada a ponderar os reflexos desse sentimento na formação cultural brasileira. Aproximamos o medo à concepção de ‘horror artístico’ de Noël Carroll (1999), de modo que no romance de Cornélio Penna (1896-1958) ele teria sentido estético, funcionando como operador narrativo que impulsiona a história, sendo capaz de sustentar a tensão do enredo e engendrar as diversas formas de poder na trama. A obra é envolta em sombras que fortalecem o clima de mistério na fazenda do Grotão. Há um movimento de claro-escuro na construção da narrativa, que se estende à ambientação dos espaços físicos e psicológicos.”

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Narrativas monstruosas (Josalba Fabiana dos Santos)

“(…) O narrador [de A menina mortaanother_random_horror_painting_by_otkman1995-d4n8luq (Cornélio Penna)] conta uma história eliminando muitas informações, desorientando o leitor. Agrava a situação o fato de que há pequenas narrativas paralelas à maior, produzidas pelas escravas e que contribuem ainda mais para a desorientação. É o ‘Decifra-me ou te devoro’ edipiano que retorna. A narrativa se coloca de maneira monstruosa, pois na medida em que se desenvolve destrói parte daquilo mesmo que produz, como Crono devorando os próprios filhos. E a comparação com Crono não é de forma alguma gratuita, pois é conhecida a associação semântica desse deus com o tempo (cronos). (…) No entanto, na medida em que a narrativa se escoa como um fluxo, ela invariavelmente aponta para o seu fim, para o seu próprio término. A narrativa toda se devora. Tal devoramento é suscitado inclusive pelos enigmas que vão sendo fartamente distribuídos ao longo do romance. Ou seja, aquilo que é narrado já chega ao leitor meio desintegrado, como que faltando pedaços.”

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A Menina Morta (Cornélio Penna)

“De quando em quando chegavam até ela, em ondas, os sons quebrados de gargalhadas, mas tinha ouvido as ordens deixadas por seu pai antes de partir e sabia terem sido as armas embaladas dtumblr_lia9nmH6gu1qam3fqo1_500istribuídas aos feitores e aos guardas, com a recomendação de atirar ao primeiro sinal de revolta. Assim estava informada de que toda aquela paz, na aparência nascida da ordem e da abundância, todo aquele burburinho fecundo de trabalho, guardavam no fundo a angústia do mal, da incompreensão dos homens, a ameaça sempre presente de sangue derramado.”

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Um prego! Mais outro prego!… (Adelino Magalhães)

imagem09“(…) Oh! a mesma cidade que ele veria semanas depois, num mortal aspecto de devastação, maltrapilhada na sujeira de secas folhas, de panos, de restos orgânicos, relaxadamente descosidos no silêncio de suas ruas, mal percorridas por um ou outro veículo, não raro com uma serventia fúnebre, a apavorar os poucos transeuntes macilentos e preocupados que passavam como sombras!…

E se o vento levantava uma nuvem de pó, levavam os sombrios andantes rapidamente, estertorosamente, o lenço ao nariz como que procurando se resguardar, desvairadamente, do furacão da peste!…

Eles, sombras no meio da Sombra daquele pesadelo – sombras de medo, numa tétrica insegurança, numa tétrica desconfiança de cada passo que davam…”

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