Arquivo da tag: medo urbano

Histórias de sangue: o crime e o medo urbano no Brasil (Pedro Sasse)

“Toda produção literária acaba sofrendo, em maior ou menor grau, influência da cultura, do ambiente, das perspectivas de mundo presentes em seu meio. Consequentemente, o medo artístico é também um produto cultural e, como tal, pode revelar muito sobre os temores de um momento ou local específicos. Mesmo que muitas obras, principalmente no horror sobrenatural, acabem, devido ao ambiente insólito, tornando suas referências culturais implícitas e metafóricas, outras tendem não só a explicitar tal influência como utilizá-la justamente para produzir a1_hate_sketch4o medo estético. É o caso das narrativas ‘baseadas em fatos reais’ – os romances históricos, os relatos, os diários, gêneros que se ancoram nessa área difusa para, aproveitando-se de um medo real de seu leitor, afetá-lo através da ficção. No Brasil, um bom exemplo desse tipo de obra são as histórias de crime, obras populares condenadas pela alta crítica, que visavam chocar o leitor ao romancear tais acontecimentos em folhetins e livros baratos cheios de ‘crimes de sangue’. Apesar da recepção negativa da crítica literária hegemônica, tais obras dominavam o mercado editorial. O presente artigo pretende abordar as relações entre o medo real e o medo artístico nesse tipo de obra, analisando para isso, além dessas narrativas, alguns textos de João do Rio, para mostrar como esse gênero acabou afetando até a chamada ‘alta literatura’.”

Leia o ensaio completo


“A alma encantadora das ruas” e “Dentro da noite”: João do Rio e o medo urbano na literatura brasileira (Julio França)

cropped-niebla“(…) Quando não é personificado e transformado na própria personagem monstruosa ­­ – casos, por exemplo, da mansão Crane em The Haunting of Hill House (1959), de Shirley Jackson, e do Hotel Overlook, em The Shinning (1977), de Stephen King, dois romances já clássicos do gênero –, o espaço narrativo é sempre responsável direto por conferir à personagem monstruosa grande parte de seu poder de provocar o medo e outras emoções correlatas. Mais do que um simples elemento constitutivo do texto narrativo, o espaço, na literatura do medo, pode se transformar em um topos literário, como ocorre nos inúmeros contos que tematizam locais mal-assombrados. (…)”

Leia o ensaio completo


O mal e a cidade: o “medo urbano” em “Dentro da Noite”, de João do Rio (Julio França e Pedro Sasse)

711e8455703238623ab0e6ab11bcfc1f_large“Através da leitura de alguns contos do livro Dentro da noite, de João do Rio,  o ensaio descreve dois aspectos da literatura do medo no Brasil: (i) o caráter não sobrenatural das fontes do medo artístico no Brasil e (ii) a ascensão do espaço urbano como o ambiente privilegiado para as manifestações do mal moderno em narrativas ficcionais brasileiras.”

Leia o ensaio completo


O bebê de tarlatana rosa (João do Rio)

“(…) O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal estar curioso, um estado de inibição esquisito. — Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. — Disfarça sim! — Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente —uma caveira com carne… (…)”

Leia o aqui conto completo


Quem é esse desconhecido que provoca medo? – O medo do outro no conto “Passeio Noturno”, de Rubem Fonseca (Luciano Cabral)

“(…) O fato é que as nostálgicas batalhas dos séculos passados deram lugar às guerrilhas urbanas e às revoltas locais, que parecem, num primeiro momento, surgir sem motivo aparente. Os conflitos 130407211558-largeantes graduais e esporádicos tornaram-se, repentinos, diários, quase perpétuos, em que o fim de um combate assinala o início de outro. Os projetos coletivos (que atraíam multidões ao ponto de colocarem povos e países em lados opostos) perderam o sentido e cederam espaço aos projetos particulares, com pretensões muito menores: os desejos, antes comuns, agora são extremamente individuais. Os envolvidos em combates não são mais (ou apenas) soldados selecionados institucionalmente, mas, antes, são pessoas comuns, carregadas dos mais diversos e privados desejos. A guerra agora é de um indivíduo contra outro. (…)”

Leia o ensaio completo


Dentro da noite (João do Rio)

“(…) — Caso muito interessante, Rodolfo. Não ha dúvida que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de S. Francisco de Assis também é degeneração e o amor de Santa Teresa não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? És mais um tipo a enriquecer a série enorme dos discípulos do Marquês de Sade. Um homem de espírito já definiu o sadismo: a depravação intelectual do assassinato.  (…)” (trecho de “Dentro da Noite”)

Leia o conto completo

Leia o livro de contos completo


O Cobrador (Rubem Fonseca)

“Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.
A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o para­lama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante, zunindo, fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.”

Leia o conto completo