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Um sonho dantesco: uma leitura de “O navio negreiro”, de Castro Alves (João Pedro Bellas)

navio“O artigo propõe uma leitura do poema O navio negreiro, de Castro Alves, que busca dar conta das imagens empregadas pelo poeta para lidar com as questões da escravidão. A abordagem terá como objetivo demonstrar que, para dar conta dos horrores engendrados pelo sistema escravocrata, o autor recorreu a uma série de imagens comuns ao Gótico literário. Além disso, será analisada com mais detalhe a imagem do mar, com vistas a compreender o seu significado no poema.”

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Crioula, USP, n. 23 (2019). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


A Ilha Maldita (Bernardo Guimarães)

“Por esse tempo já essa ilha malsinada que tanto dava que pensar, era o terror e o duende dos pescadores por toda a extensão destas costas. Corriam, desde tempos imemoriais, entre o vulgo lendas sinistras e aterradoras a respeito dessa ilhota que se apresentava como um rochedo medonho e inacessível, erguendo cinco ou seis braças acima das ondas, liso e escarpado á maneira de barbacã denegrida e inexpugnável de um castelo ro­queiro. (…) Uma tempestade eterna roncava-lhe entorno, cingindo-a de alvos escarcéus de espuma, que incessantemente, se arrojavam é recuavam em perpétua escalada contra as titânicas e inabaláveis muralhas, indo lamber-lhe até o alto das ameias. (…) Alguns pre­tendiam fazer crer que era um monstro marinho de espantosas dimensões; mas o que é certo, e que todos acreditavam e acre­ditam até hoje, é que aquela penedia é uma ilha que anda solta a boiar sobre os mares, e que é nada menos que o palácio flutuante de uma sereia, feiticeira ou fada marinha, a qual como poder de seu condão e de seus conjuros diabólicos a faz mover-se de um ponto a outro, e submergir-seashport ou surgir á tona da água conforme o seu capricho. Contavam mais que essa sereia ou fada, com a magia de seus cantares e artifícios satânicos, cos­tumava atrair para lá alguns-pescadores dos mais jovens e for­mosos, e que lá os guardava para sempre encerrados em suas impenetráveis espeluncas. Alguns também, que tinham tido a rara fortuna de avizinhar-se da ilha sem lá ficarem para sempre detidos, referiram que pelas penedias que a cercavam ressoavam har­monias e cantares suavíssimos, e asseguravam mesmo ter visto sobre a crista dos penedos uma donzela de estranha formosura, dedilhando uma harpa de ouro engastada de pérolas, e entoando canções tão tristes e maviosas que faziam gemer de saudade os próprios rochedos. Sabia-se até o numero e os nomes das desestruturadas vitimas que tinham caído nas ciladas da maléfica e perigosa feiticeira dos mares.”

Leia A Ilha Maldita, de Bernardo Guimarães