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Dor, Horror e Crueldade no Insólito Ficcional: A abjeção no conto “A causa secreta” de Machado de Assis (Mariana Silva Franzim)

“O presente artigo traz uma análise do conto ‘A causa secreta’, de Machado de AssisScreen Shot 2015-04-04 at 6.00.02 PM, publicado originalmente em 1885. O conto narra a sucessão de fatos que envolvem o encontro de três personagens: Garcia, jovem médico, Fortunato, capitalista e Maria Luísa, a submissa esposa do último. Os pontos a serem analisados passam pela questão do olhar na obra machadiana, a perversão, o sentimento de Schadenfreude (prazer na dor alheia), o monstruoso e a abjeção. O conto é narrado em terceira pessoa, por um narrador que assume o caráter de um voyeur que espia os fatos de muito perto, porém permanece oculto no desenrolar da trama. O narrador se propõe a voltar no tempo e contar uma história que leve o leitor até uma cena descrita de forma estática no início do conto, e que justifique as situações que a antecederam. Durante a análise do conto serão abordados os seguintes pontos: o conceito de abjeção nas artes a partir de Kristeva e a forma como o conto machadiano antecipa alguns de seus elementos; a ambiguidade na constituição das personagens que encaminham-se para uma condição monstruosa extrema, dando destaque a função dúbia do médico no final do século XIX aqui representado sob a imagem do personagem Garcia; a noção de Schadenfreude, prazer estético ou moral na dor alheia; e por fim a condição do leitor frente a esta obra ambígua, inquietante e insólita.”

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O Sadismo em “A Causa Secreta” e “O Barril de Amontillado” (Nicole Ayres Luz)

“O trabalho propõe uma leitura comparativa dos contos ‘A Causa Secreta’, de Machado de Assis, e ‘O Barril de Amontillado’, de Edgar Allan Poe. Os objetivos são: (1) avaliar os comportamentos sádicos dos personagens Fortunato e Montresor – enquanto o primeiro é motivado por uma vingança, o segundo revela uma natureza sádica –, tomando por base as noções de monstruosidade, vício e virtude, apresentadas por Sade em Nota sobre Romances, e de perversidade, desenvolvida por Poe no conto ‘O Demônio da Perversidade’; e (2) analisar como, diante da narração de práticas sádicas, o leitor sente, ao mesmo tempo, repulsa, curiosidade e prazer, tornando-se cúmplice do sadismo estético. Pretende-se mostrar que o monstro humano, por sua proximidade e aparente normalidade, talvez seja ainda mais amedrontador. O narrador observador do conto de Machado tenta ser neutro, enquanto o narrador personagem do conto de Poe tenta se justificar ; ou seja, em nenhum dos dois casos há uma condenação dos atos dos personagens: as histórias se atêm aos fatos, cabendo ao leitor tirar suas próprias conclusões. Se a “causa secreta” da conduta de Fortunato e, por extensão, de Montresor, é o sadismo, a causa do sadismo, da prática do mal pelo mal, parece não ter uma explicação evidente. Permanecem em questão, portanto, as complexidades do comportamento humano.”

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Prefácio de “Contos fantásticos: Machado de Assis” (Raimundo Magalhães Júnior)

“Contos Fantásticos, de Machado de Assis? Se algum leitor fizer tal pergunta, é sinal de que pouco conhece a obra do grande escritor carioca, considerado, com justiça, um dos nossos grandes romancistas e o maior dos nossos contistas. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 — do mesmo ano do nascimento de Casimiro de Abreu, de Tobias Barreto e de Floriano Peixoto — Joaquim Maria Machado de Assis seria poeta precoce, começando a versejar aos 15 anos, e publicaria antes de completar 18 anos, o seu primeiro conto, intitulado Três Tesouros Perdidos. Esse conto, saído em A Marmota de 5 de janeiro de 1858, seria incluído no volume Páginas Recolhidas, a partir de 1937. A princípio, dedicava-se Machado de Assis com mais frequência às musas, à crítica teatral e literária, à crônica, mas a partir de junho de 1864, quando se liga ao Jornal das Famílias, é a produção do contista que começa a adquirir relevo, através de longas narrativas, às vezes publicadas em dois a três números daquela publicação. (…)”

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Conto Alexandrino (Machado de Assis)

“(…) Ao lado dele, Pítias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papiro; e assim ganhava a ciência de duas maneiras. Às vezes, por divergência de apreciaçãoa_rat_by_gigowolf-d55uv08, eram obrigados a escalpelar maior número de ratos do que o necessário; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só desses casos mostrará a consciência com que eles procediam. Pítias observara que a retina do rato agonizante mudava de cor até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a cor de canela como o tom final da morte. (…)”

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O leitor cruel: sadismo e curiosidade em “A causa secreta”, de Machado de Assis (Jonatas Tosta Barbosa)

“(…) Ao longo do conto, o protagonista explicita a dificuldade de explicar, através do raciocínio lógico, a motivação do comportamento perverso, a causa do impulso cruel no ser humano e a ausência de uma pretensa função para a perversidade que não seja destrutiva. O protagonista não acredita que, após cometer-se um ato cruel, o indivíduo sinta satisfação. O remorso (ou a culpa) é a única reação possível, antagonizando com o sentimento de prazer obtido durante o ato cruel, que, por fim, faz com que o indivíduo sinta repulsa e horror por si próprio: ‘(…) no caso daquilo que denominei de perversidade, não somente o desejo de bem-estar não é excitado, mas existe um sentimento fortemente antagônico’ (POE, 2001, 346). (…)”

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A causa secreta (Machado de Assis)

causa_secreta“(…) Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. (…) E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. (…) Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. (…)”

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