Arquivo da tag: literatura de horror

Horror e Paideia (João Gabriel Lima)

“(…) Se o horror já foi, no passado, um instrumento para a formação moral do homem, tendemos agora a afirmar que ele só raramente exerce essa função. Antes tudo, isto se deve ao fato de que a sociedade contemporânea é avessa a tudo o que persiste no espírito – e não é outro o mogreek-tragedy-masktivo de nossos esforços em minimizar os efeitos traumáticos. Tentamos, de todas as formas, evitar os traumas na formação das crianças e na vida dos adultos, sem parar e refletir sobre o que eles despertam mais além da ansiedade momentânea. Não se quer com isso dizer, é claro, que se deve traumatizar deliberadamente sempre que desejarmos ensinar algo a alguém. Isso seria ridículo e perverso. Mas o horror paideico, sendo um ‘trauma’ no âmbito narrativo, teve sempre a exigência de transmitir a ética comunitária. O horror artístico, seu sucessor, embora tenha gestado, em sua história, obras de alta complexidade e questionamento moral, parece estar cada vez mais indiferente a essa exigência. Hoje, raras são as vezes em que constatamos uma alteração ética profunda produzida por uma obra de horror. (…)”

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O espelho (Gastão Cruls)

“(…) O efeito era deveras surpreendente. Criava-­se uma atmosfera de sonho e fantasmagoria. Víamo-­nos com os rostos muito pálidos, quase com um livor de morte, e onde os traços mais marcantes, contrastando com manchas de sombra, se recortavam em linhas nítidas. Apenas, naquelas máscaras hirtas, naquelas faces descaveiradas, dentro das órbitas fundas, os olhos chamejavam com fulgor estranho. (…)”

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O Noturno no. 13 (Gastão Cruls)

“(…) Não me enganara. Pouco depois, dois vultos apareciam entre as trepadeiras e atravessavam o jardim em direção oposta à minha, demandando a porteira do caminho largo. Num deles, todo de negro, cabeleira ao vento, eu logo reconheci Paulo. O outro, mais franzino e mais baixo, devia

ser uma mulher, e estava envolto numa túnica branca que lhe descia até os pés. Eles caminhavam vagarosamente e bem unidos, a figura de branco torneando com o braço a cintura de Paulo.

Estarrecido, num arranco supremo, com as unhas cravejadas no peitoril da janela, e uma voz que mais se assemelharia a um estertor de agonizante, eu ainda pude gritar por Paulo umas duas ou três vezes.

Ao meu apelo, percebi que ele fizera tenção de parar e voltar-­se, masskeleton_playing_piano_by_ac44-d5pkxab a figura de branco aconchegou-­o mais de si, troux-e-lhe a cabeça ao peito carinhoso, e ambos, sempre enlaçados, desapareceram entre a ramagem do pomar. (…)”

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O camarote maldito (Amândio Sobral)

“(…) O instinto de conservação, aliás, o único sentimento humano que morre meia hora depois do homem (disse-­o, muito sabiamente, não me lembro quem) fazia-­me lutar contra a invasão das fera cinzentas, até o momento de ser espatifada a ‘8118887971_cb1b883295Gaivota’, batida dos vagalhões da preamar cujo ruído abafava por vezes os guinchos dos animais.

Alucinado, uma ideia súbita ocorreu-­me então. Como recurso supremo, aproveitei-­me do morto para engodo dos ratos e alguns minutos após tê-­lo encostado à porta um guinchar infernal reboou por todo o navio. Um exército de olhos brilhantes e focinhos peludos investiu contra o vão procurando alcançar o cadáver.

Febril, lábios secos e garganta em fogo, iniciei o plano terrível para impedi-­las de penetrar no aposento. Mal um olho brilhante assomava na abertura, num gesto rápido eu vazava-­o com o prego. Era formidável guincho de dor, um espirro de líquido sangrento, um espernear confuso e uma, luta titânica contra os companheiros ferozes que o devoravam… num bater de dentes de fazer parar o sangue nas veias. (…)”

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