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Espaços tropicais da literatura do medo: traços góticos e decadentistas em narrativas ficcionais brasileiras do início do século XX (Júlio França)

“Nas narrativas ficcionais, a construção do locus horribilis é essencial para a produ1e97210e8af65ca92df38efa0fac92f0ção do medo como efeito de recepção. As características objetivas dos espaços narrativos são tão importantes quanto a percepção subjetiva que personagens e os próprios leitores têm do ambiente. Tais percepções não são, na maioria das vezes, idiossincráticas, mas respondem a determinadas condições culturais. Buscando descrever como o tempo histórico da narração afeta as paisagens do medo, tomamos três contos de Gastão Cruls (‘Noites brancas‘, ‘No embalo da rede‘ e ‘O espelho‘), para demonstrar a influência da estética e da visão de mundo gótico-decadentistas em narrativas brasileiras do início do século XX.”

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Ao embalo da rede (Gastão Cruls)

“(…) Infelizmente, com horror de mim mesmo, eu já me venho estudando há algum tempo, e de um médico cheguei mesmo a indagar se não seria melhor fugir ao casamento. Mas, tu não conheces a heshrouded_corpse_1853diondez da minha vida nestes últimos meses, a visita frequente aos necrotérios, o desejo irresistível de assistir às exumações mais horrendas, o gozo que me dão as câmaras mortuárias e os ofícios fúnebres… Há coisas que a gente não sabe como confessar, tanta é a degradação que traduzem. (…)

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O espelho (Gastão Cruls)

“(…) O efeito era deveras surpreendente. Criava-­se uma atmosfera de sonho e fantasmagoria. Víamo-­nos com os rostos muito pálidos, quase com um livor de morte, e onde os traços mais marcantes, contrastando com manchas de sombra, se recortavam em linhas nítidas. Apenas, naquelas máscaras hirtas, naquelas faces descaveiradas, dentro das órbitas fundas, os olhos chamejavam com fulgor estranho. (…)”

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O Noturno no. 13 (Gastão Cruls)

“(…) Não me enganara. Pouco depois, dois vultos apareciam entre as trepadeiras e atravessavam o jardim em direção oposta à minha, demandando a porteira do caminho largo. Num deles, todo de negro, cabeleira ao vento, eu logo reconheci Paulo. O outro, mais franzino e mais baixo, devia

ser uma mulher, e estava envolto numa túnica branca que lhe descia até os pés. Eles caminhavam vagarosamente e bem unidos, a figura de branco torneando com o braço a cintura de Paulo.

Estarrecido, num arranco supremo, com as unhas cravejadas no peitoril da janela, e uma voz que mais se assemelharia a um estertor de agonizante, eu ainda pude gritar por Paulo umas duas ou três vezes.

Ao meu apelo, percebi que ele fizera tenção de parar e voltar-­se, masskeleton_playing_piano_by_ac44-d5pkxab a figura de branco aconchegou-­o mais de si, troux-e-lhe a cabeça ao peito carinhoso, e ambos, sempre enlaçados, desapareceram entre a ramagem do pomar. (…)”

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O satanás de Iglawaburg (Adelpho Monjardim)

lucifer-rising“(…) Confesso, que sem ser medroso, naquela noite tive medo do diabo, ente que eu cria só para assustar crianças. Em tropel galgamos, os quatro, a escadaria de pedra que dava acesso ao último compartimento do torreão. O quarto estava aberto e fracamente iluminado por um lampião de querosene, colocado sobre uns caixotes. Reinava grande desordem naquele depósito de velharia impres­táveis. A janela estava aberta. Entramos no aposento. De Radeck nem sinal. Deparei com a tela de Satanás. Diante da realidade era bem apagada a descrição feita por Nicoláo. O Satanás que ali estava era o verdadeiro rei do Averno com toda a sua hediondez; meio corpo nu, ligeiramente encurvado, mãos crispadas e garras aduncas. E que olhar temeroso! Olhei para Nicoláo. Mortalmente páli­do, o seu corpo tremia. – Radeck! Radeck! Como louco se pôs a gritar. (…)”

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Os olhos que comiam carne (Humberto de Campos)

“(…) De pé, os olhos escancarados, a boca aberta e muda, os braços levantados numa atitude de pavor, e de pasmo, Paulo Fernando corre na direção da porta, que adivinha mais do que vê, e abre-a. E o que xerxes_break__s_eye_by_bloody_aliice-d46a00xenxerga, na multidão de médicos e amigos que o aguardam lá fora, é um turbilhão de espectros, de esqueletos que marcham e agitam os dentes, como se tivessem aberto um ossário cujos mortos quisessem sair. Solta um grito e recua. Recua, lento, de costas, o espanto estampado na face. Os esqueletos marcham para ele, tentando segurá-lo. (…)”

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Um prego! Mais outro prego!… (Adelino Magalhães)

imagem09“(…) Oh! a mesma cidade que ele veria semanas depois, num mortal aspecto de devastação, maltrapilhada na sujeira de secas folhas, de panos, de restos orgânicos, relaxadamente descosidos no silêncio de suas ruas, mal percorridas por um ou outro veículo, não raro com uma serventia fúnebre, a apavorar os poucos transeuntes macilentos e preocupados que passavam como sombras!…

E se o vento levantava uma nuvem de pó, levavam os sombrios andantes rapidamente, estertorosamente, o lenço ao nariz como que procurando se resguardar, desvairadamente, do furacão da peste!…

Eles, sombras no meio da Sombra daquele pesadelo – sombras de medo, numa tétrica insegurança, numa tétrica desconfiança de cada passo que davam…”

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