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Narrativas monstruosas (Josalba Fabiana dos Santos)

“(…) O narrador [de A menina mortaanother_random_horror_painting_by_otkman1995-d4n8luq (Cornélio Penna)] conta uma história eliminando muitas informações, desorientando o leitor. Agrava a situação o fato de que há pequenas narrativas paralelas à maior, produzidas pelas escravas e que contribuem ainda mais para a desorientação. É o ‘Decifra-me ou te devoro’ edipiano que retorna. A narrativa se coloca de maneira monstruosa, pois na medida em que se desenvolve destrói parte daquilo mesmo que produz, como Crono devorando os próprios filhos. E a comparação com Crono não é de forma alguma gratuita, pois é conhecida a associação semântica desse deus com o tempo (cronos). (…) No entanto, na medida em que a narrativa se escoa como um fluxo, ela invariavelmente aponta para o seu fim, para o seu próprio término. A narrativa toda se devora. Tal devoramento é suscitado inclusive pelos enigmas que vão sendo fartamente distribuídos ao longo do romance. Ou seja, aquilo que é narrado já chega ao leitor meio desintegrado, como que faltando pedaços.”

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A Menina Morta (Cornélio Penna)

“De quando em quando chegavam até ela, em ondas, os sons quebrados de gargalhadas, mas tinha ouvido as ordens deixadas por seu pai antes de partir e sabia terem sido as armas embaladas dtumblr_lia9nmH6gu1qam3fqo1_500istribuídas aos feitores e aos guardas, com a recomendação de atirar ao primeiro sinal de revolta. Assim estava informada de que toda aquela paz, na aparência nascida da ordem e da abundância, todo aquele burburinho fecundo de trabalho, guardavam no fundo a angústia do mal, da incompreensão dos homens, a ameaça sempre presente de sangue derramado.”

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