Arquivo da tag: la morte amoureuse

A morta amorosa (Théophile Gautier)

“Você me pergunta, irmão, se amei; respondo que sim. É uma história singular e terrível, e, embora tenha sessenta e seis anos, mal ouso tocar nas cinzas dessa lembrança. Não quero lhe negar nada, mas não contaria tal história a alguém menos experiente. São acontecimentos tão estranhos que custo a acreditar que tenham ocorrido. Durante mais de três anos fui vítima de uma ilusão singular e diabólica. Eu, pobre pároco de aldeia, vivi em sonhos (Deus queira que tenha sido um sonho!), durante todas as noites, uma vida de danado, uma vida de mundano, de Saradanapalo. Um único olhar demasiado complacente lançado sobre uma mulher quase me custou a perda da minha alma; mas, finalmente, com a ajuda de Deus e do meu santo padroeiro, consegui expulsar o espírito maligno que havia se apossado de mim. Minha vida confundira-se com uma existência noturna completamente diferente. De dia, eu era um sacerdote do Senhor, casto, ocupado com a oração e com as coisas santas; à noite, mal fechava os olhos, transformava-me num jovem senhor, grande conhecedor de mulheres, vinhos, cães e cavalos, que jogava dados e blasfemava; e quando me acordava, ao nascer do sol, parecia ao contrário que adormecia, e que sonhava ser padre. Dessa vida sonambúlica restou-me a lembrança de objetos e palavras contra as quais não posso me defender, e, apesar de jamais ter transposto as paredes do meu presbitério, quem me ouvisse, diria que sou um homem que experimentou de tudo e que, voltando do mundo, tomou o hábito para terminar uma existência demasiado agitada no seio de Deus, e não um humilde seminarista que envelheceu numa paróquia ignorada, escondida no fundo de um bosque, sem nenhum contato com as coisas do mundo.”

Leia aqui o conto completo, em francês


A mortalha de Alzira (Aluísio Azevedo)

“(…) – Fujamos! Segredou Alzira, puxando pelo braço o companheiro.

 – Não! Hei de beber-lhe primeiro o sangue! Hei de beber o sangue de todo aquele que pretende68305169r arrancar-te dos meus braços!

 E vergou-se sobre o cadáver, colando-lhe os lábios a uma ferida do peito que sangrava

 – Ângelo! Ângelo! partamos! Olha que aí vem o dia! exclamou a cortesã.

 Ângelo ergueu então a cabeça e notou que, com efeito, em volta dele tudo começava a esbater-se à luz da aurora. O próprio cadáver de cuja ferida acabava ele de despregar a boca cheia de sangue, nada mais era do que uma transparente sombra, estendida a seus pés. (…)”

Leia A mortalha de Alzira, de Aluísio Azevedo