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O fascínio do crime: João do Rio e as raízes da Literatura Policial no Brasil (Júlio França e Pedro Sasse)

Imagem relacionada“Levando em conta a escassez de personagens detetivescas heroicas em narrativas literárias brasileiras, o artigo “O Fascínio do Crime: João do Rio e as Raízes da Literatura Policial no Brasil”, de Julio França e Pedro Sasse, adota a  categoria crítica Ficção de Crime, de John Scaggs, para demonstrar que as narrativas de thriller criminais possuem raízes profundas em nossa literatura e toma a produção literária de João do Rio como exemplo pioneiro dessa tendência. Além disso, sustenta que o Suspense Criminal, categoria crítica baseada no conceito de crime novel, de Julian Symons, é a principal forma da Ficção de Crime no Brasil. Nessas produções, o protagonismo não é dado nem ao detetive, nem ao desvelamento do enigma, mas ao criminoso em si, aos atos que este comete e aos motivos que o levaram a tal. Ao considerar os folhetins e as crônicas de crime no Brasil na segunda metade do século XIX e no início do século XX como predecessores do Suspense Criminal entre nós, os autores elegem João do Rio como um dos primeiros nomes a inaugurar essa vertente em sua forma plena com o foco nos crimes e nas atrocidades a que está submetido o homem urbano.”

Leia o ensaio completo aqui.

(*)Esse ensaio foi publicado originalmente no livro Configurações da Narrativa Policial. Republicamos aqui, com autorização dos próprios autores, com fins puramente acadêmicos.

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Histórias de sangue: o crime e o medo urbano no Brasil (Pedro Sasse)

“Toda produção literária acaba sofrendo, em maior ou menor grau, influência da cultura, do ambiente, das perspectivas de mundo presentes em seu meio. Consequentemente, o medo artístico é também um produto cultural e, como tal, pode revelar muito sobre os temores de um momento ou local específicos. Mesmo que muitas obras, principalmente no horror sobrenatural, acabem, devido ao ambiente insólito, tornando suas referências culturais implícitas e metafóricas, outras tendem não só a explicitar tal influência como utilizá-la justamente para produzir a1_hate_sketch4o medo estético. É o caso das narrativas ‘baseadas em fatos reais’ – os romances históricos, os relatos, os diários, gêneros que se ancoram nessa área difusa para, aproveitando-se de um medo real de seu leitor, afetá-lo através da ficção. No Brasil, um bom exemplo desse tipo de obra são as histórias de crime, obras populares condenadas pela alta crítica, que visavam chocar o leitor ao romancear tais acontecimentos em folhetins e livros baratos cheios de ‘crimes de sangue’. Apesar da recepção negativa da crítica literária hegemônica, tais obras dominavam o mercado editorial. O presente artigo pretende abordar as relações entre o medo real e o medo artístico nesse tipo de obra, analisando para isso, além dessas narrativas, alguns textos de João do Rio, para mostrar como esse gênero acabou afetando até a chamada ‘alta literatura’.”

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“Um sinal de porneia”: a femme fatale enquanto figura arquetípica em “O carro da semana santa”, de João do Rio (Bruno Tardin)

“Propõe-se aqui uma análise teórico-crítica acerca da misteriosa personagem femme fatale em torno da qual gira a trama do conto O carro da Semana Santa, de João do Rio. Serão abordados aspectos temáticos e estruturais que possibilitem a defesa de elementos simbólicos no texto literário, recorrentes à literatura do Decadentismo, além da notável bivalência cultural propagada pela modernidade através da constituição psíquica e social do sujeito moderno inserido no espaço urbano. Para tanto, a personagem femme fatale, íntima deste cenário de perversão sociocultural, será avaliada a partir de seus traços arquetípicos enquanto figura de destaque no jogo teatral perpetrado pela sociedade burguesa moderna, através do resgate de determinados aspectos da Grande Mãe jungiana presentes na personagem mítica de Lilith, senhora da noite e dos mistérios.”

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O carro da semana santa (João do Rio)

“Tudo na vida é luxúria. Sentir é gozar, gozar é sentir até ao espasmo. Nós todos vivemos na alucinação de gozar, de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença? Talvez. Mas é também verdade. Basta quDetroit_Eletric_ad_1912e vejamos o povo para ver o cio que ruge, um cio vago, impalpável, exasperante. Um deus morto é a convulsão, é como um sinal de porneia. As turbas estrebucham. Todas as vesânias anônimas, todas as hiperestesias ignoradas, as obsessões ocultas, as degenerações escondidas, as loucuras mascaradas, inversões e vícios, taras e podridões desafivelam-se, escancaram, rebolam, sobem na maré desse oceano. Há histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes ao beliscão dos machos; há nevropatas místicas junto a invertidos em que os círios, os altares, os panos negros dos templos acendem o braseiro, o incêndio, o vulcão das paixões perversas. A semana santa! Tenho medo desta quinta-feira. Para quem conhece bem uma grande cidade, esse dia especial sem rumores, sem campainhas, é um tremendo dia em que os súcubose os íncubos voltam a viver. Até as ruas cheias de sombra parecem incitar ao crime, até o céu cheio de estrelas e de luar põe no corpo dos homens a ânsia vaga e sensual de um prazer que se espera.”

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Emoções e a perversidade do Barão Belfort: discurso e decursos do sujeito na modernidade (Bruno Tardin)

“Ao longo deste estudo de caso acerca do Barão André Belfort, presente no conto Emoções da coletânea de João do Rio29029a6f21961eb29e99c09f892ba3e0 intitulada Dentro da noite, nota-se o papel desta personagem enquanto sujeito perversor e porta-voz das várias déviances urbanas e depravações amorais que configuravam o modus vivendi da elite burguesa carioca do início do século XX. Aqui, vê-se como a bivalência cultural propagada pela modernidade irá ser refletida no ego urbano e moderno, que se encontra no limiar entre o luxo dos bairros centrais e a miséria das periferias, o que explica a natureza vertiginosa da modernidade, mascarada por um gosto art noveau que, por um lado, instigava o imaginário cultural dessa sociedade, e por outro garantia os espaços de liminaridade nos quais se exprimiam, com elegância e perversidade, as pulsões sufocadas deste grupo culturalmente definido pela Belle Époque carioca. Isto, portanto, é o que se busca observar na personagem do Barão Belfort: a natureza glamorosa e cruenta da personagem, na qual a elegância mascara a sordidez e desvela a própria cidade a partir do sujeito que a constitui e representa.”

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O Estigma de Obaluaê: o grotesco enquanto fator de estranhamento em “A Peste”, de João do Rio (Bruno Oliveira Tardin)

“A presente análise propõe-se a desenvolver um breve estudo de caso do fenômeno do ‘estranhamento’ (compreendido enquanto o unheimlich freudiano) e dos traços grotescos presentes no conto A Peste, de João do Rio, publicado originalmente na coletânea Dentro da noite, em 1910. Busca-se compreender também como o senso de horror pessoal é desperto a partir da narração de um surto epidêmico de varíola, e suas funestas consequências – sempre a partir do discurso da personagem Luciano Torres, figura central à trama do conto. A relação, compreende-se, entre tais conceitos é que justamente os traços do grotesco reconhecíveis ao longo do conto operam enquanto agenciadores de um fator de estranhamento que quebra com as expectativas de um ideal, associado à Cultura vigente da Belle Époque carioca, a partir das qualidades do sentir pelo viés narrativo, configurando assim o que se poderia chamar de uma ‘estética do estranhamento’ em João do Rio.”

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A peste (João do Rio)

“(…) Então veio-me um louco desejo de chorar, um desejo desvairado. Fiz um vagoPeste-Negra-2 gesto. O funcionário abriu-me a porta e eu saí tropeçando, desci o morro a correr quase, entre os empregados num vaivém constante e as macas que subiam com as podridões. Um delírio tomava-me. As plantas, as flores dos canteiros, o barro das encostas, as grades de ferro do portão, os homens, as roupas, a rua suja, o recanto do mar escamoso, as árvores, pareciam atacados daquele horror de sangue maculado e de gangrena. Parei. Encarei o sol, e o próprio sol, na apoteoso de luz, pareceu-me gangrenado e pútrido. Deus do céu! Eu tinha febre. Corri mais, corri daquela casa, daquele laboratório de horror em que o africano deus selvagem da Bexiga, Obaluaiê, escancarava a face deglutindo pus. E atirei-me ao bonde, tremendo, tremendo, tremendo…”

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