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Fantástico, medo e hesitação: uma questão de leitura (Karla Menezes Lopes Niels)

Dome Head“O leitor de um texto fantástico, e principalmente de horror, precisa envolver-se na narrativa, identificar-se com a personagem e reagir ao que lê. Isso explica o porquê de as narrativas que lidam com temas sobrenaturais fazerem tanto sucesso entre os diversos públicos leitores desde os séculos XVIII e XIX, quando do surgimento dos romances góticos e fantásticos.

Seria, portanto, pertinente a hipótese da participação de um leitor real na construção da narrativa fantástica e, em especial, naquela em que o medo provocado no leitor pelos acontecimentos narrados constitui a força motriz da narrativa?”

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O profano, o maldito e o marginal: o conto fantástico na literatura brasileira (Karla Menezes Lopes Niels)

52426f167c9e969d3a63d037aa2708d2“Os contos de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, têm sido considerados como aqueles que inauguram uma produção de cunho fantástico no Brasil que se deu à margem do cânone. A publicação dos contos, em 1855, ensejou uma série de narrativas que foram igualmente consideradas como fantásticas e que na impossibilidade de se circunscrever em determinada escola ou corrente literária foram deixadas de lado. É o caso, por exemplo, d’ A trindade maldita: contos de botequim, de Franklin Távora e dos contos ‘As ruínas da Glória‘, ‘A guarida de pedra’ e ‘As bruxas‘, de Fagundes Varela – obras que esteticamente se afastaram do projeto nacionalista iniciado pelo Romantismo e levado a cabo pelas escolas posteriores. O artigo então se propõe a esclarecer como e por que grande parte da produção fantástica do Brasil ficou esquecida até a segunda metade do século XX, quando do surgimento das primeiras antologias de contos fantásticos que resgataram essa vertente marginalizada da literatura brasileira.”

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Manifestações do medo numa literatura fantástica à brasileira (Karla Menezes Lopes Niels)

“Durante muitos anos, no Brasil, a literatura não pautada na realidade foi, de certo modo, marginalizada pela crítica. Hoje, entretanto, a literatura fantástica ganha cada vez mais espaço entre os estudos literários. Apesar de ainda pouco difundida em nossas letras, é vasta. Autores que não são reconhecidos por uma produção tumblr_mvar14NHTr1syumwko1_500de cunho fantástico, como Álvares de Azevedo e Machado de Assis, ensaiaram contos no gênero. Outros como Murilo Rubião e J.J. Veiga consagraram-se pela produção de uma literatura distanciada do real. Fantástico clássico, realismo mágico, neo-fantástico, horror. Gêneros que não só partilham uma origem comum, como também o efeito estético que produzem: o medo – sentimento potencializador dos efeitos emocionais e psicológicos que esse tipo de narrativa pode exercer sobre o seu leitor ao questionar a realidade e a veracidade daquilo que o homem conhece do mundo que o cerceia. O homem teme tudo aquilo que desconhece ou que não pode controlar. Por isso as supertições são tão afloradas em diversas culturas da humanidade. O gênero tem explorado essa característica pela via da incerteza, possibilitando que o medo se manifeste. É a partir dessas considerações que pretendemos analisar como o medo tem se manifestado em nossa literatura, em especial, na de cunho fantástico.”

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O Gato Preto (Edgar Allan Poe)

“Certa noite, de volta a casa, bastante embriagado, de uma das tascas dos subúrbios, supus que o gato evitava minha presença. Agarrei-o, mas, nisto, amedrontado  com a minha violência, deu-me ele leve dentada na mão. Uma fúria diabólica apossou-se instantaneamente de mim. Cheguei a desconhecer-me. Parecia que minha alma original havia abandonado dBlack-Cate repente o corpo e uma maldade mais do que satânica, saturada de álcool, fazia vibrar todas as fibras de meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, deliberadamente, arranquei-lhe um dos olhos da órbita! Coro, abraso-me, estremeço ao narrar a condenável atrocidade.”

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A onipresença do medo: sob a regência do fantástico em “Os Outros”, de Joyce Carol Oates e “The Others”, de Alejandro Amenábar (Letícia Cristina Trojan)

the-others“(…) Dos diálogos, implícitos (ou não), entre os textos, parece prevalecer primeiro um alerta para o olhar. Na tentativa de acompanharmos um caminho de sons “mornos, monótonos e murmurantes” e personagens perplexos ou de traçarmos um trajeto iluminado pela chama trêmula da vela, Oates e Amenábar possivelmente estejam querendo alertar o leitor ou espectador sobre a importância desse olhar e sobre as articulações quase imperceptíveis do mundo sobrenatural. Este mundo permanece paralelo, portanto “outro” em relação ao mundo no qual vivemos. (…)”

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O horror e o fantástico na prosa de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (Karla Menezes Lopes Niels)

“(…) Qual a relação, portanto, que encontramos entre o efeito fantástico, o medo cósmico e o terror em Noite na taverna, de Álvares de Azevedo? O gênero fantástico, segundo Todorov, está atrelado à incerold-world-tavernteza dos acontecimentos. Se o narrador opta por uma saída natural ou sobrenatural para explicar os fenômenos descritos, entramos em outros dois gêneros, o estranho ou o maravilho. São gêneros que se sobrepõem, além de apresentarem estreita relação estrutural no que tange ao seu caráter insólito, e às diferenças entre ambos só se configuram mediante a apresentação da explicação dos acontecimentos. (…)”

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Wonderland: o efeito sublime e as aventuras de Alice (Marina Ferraz Rocha)

“O nome “Wonderland” sugere uma terra repleta de coisas estranhas e surpreendentes, fonte de interesse e de surpresa. Contudo, outra acepção da palavra “wonder” é importante para a compreensão da atitude de Alice. Como um verbo, “to wonder”, significa pensar ou especular curiosamente; ser tomado por admiração ou maravilhamento; duvidar. Dessa forma, Wonderland é tanto o país das maravilhas, quanto a terra das especulações. A atitude curiosa e especulativa de Alice é o ponto de partida para se investigar o sublime no texto de Lewis Carroll. Começa-se por esses elementos, pois é por meio deles que se dá o processo de maravilhamento na obra; ele não ocorre de forma sensorial, valendo-se de imagens ou outros recursos que produzam sensações sublimes.

O maravilhamento é produto da falta de sentido, é resultado de um jogo curioso com a razão; assim, ocorre nos domínios da cognição, pois está além do racional. É nesse ponto que poderia ser pensada a relação com o sublime, pois de acordo com Edmund Burke, a origem da força do sublime não resulta de raciocínios, mas “antecede-os e nos arrebata com uma força irresistível”. Sob a influência do efeito sublime, o sujeito não pode nem pensar sobre o objeto que é o foco de sua atenção. Alice vive uma sequência de acontecimentos fantásticos que escapam à racionalidade e, assim, inspiram-na maravilhamento e admiração – um efeito secundário do sublime.

No entanto, a produção do efeito sublime não é completa, pois falta um elemento essencial. Em Alice’s Adventures in Wonderland, o terror e o medo não figuram dentre o conjunto de reações da personagem. A produção do efeito sublime é abortada devido à ausência de elementos terríveis e ao excesso de curiosidade, que não abre espaço para a densidade e a intensificação da admiração produzida pelos acontecimentos incomuns que protagoniza.”

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