Arquivo da tag: fantasmas

O Noturno no. 13 (Gastão Cruls)

“(…) Não me enganara. Pouco depois, dois vultos apareciam entre as trepadeiras e atravessavam o jardim em direção oposta à minha, demandando a porteira do caminho largo. Num deles, todo de negro, cabeleira ao vento, eu logo reconheci Paulo. O outro, mais franzino e mais baixo, devia

ser uma mulher, e estava envolto numa túnica branca que lhe descia até os pés. Eles caminhavam vagarosamente e bem unidos, a figura de branco torneando com o braço a cintura de Paulo.

Estarrecido, num arranco supremo, com as unhas cravejadas no peitoril da janela, e uma voz que mais se assemelharia a um estertor de agonizante, eu ainda pude gritar por Paulo umas duas ou três vezes.

Ao meu apelo, percebi que ele fizera tenção de parar e voltar-­se, masskeleton_playing_piano_by_ac44-d5pkxab a figura de branco aconchegou-­o mais de si, troux-e-lhe a cabeça ao peito carinhoso, e ambos, sempre enlaçados, desapareceram entre a ramagem do pomar. (…)”

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Assombramento (Afonso Arinos)

“(…) Súbito, uma luz indecisa, coada por alguma janela próxima, fê-lo vislumbrar um vulto branco, esguio, semelhante a uma grande serpente, coleando, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavsnapshot_00-40-00_2011-02-11_12-30-35as da terra, misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.

Manuel estacou, com as fontes latejando, a goela constrita e a respiração curta. A boca semi-aberta deixou cair a faca: o fôlego, a modo de um sedenho, penetrou-lhe na garganta seca, sarjando-a e o arneiro roncou como um barrão acuado pela cachorrada. Correu a mão pelo assoalho e agarrou a faca; meteu-a de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a garrucha e apontou para o monstro; uma pancada seca do cão no aço do ouvido mostrou-lhe que sua arma fiel o traía. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou fogo. O arneiro arrojou contra o monstro a arma traidora e gaguejou em meia risada de louco:

– Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de fiança! Tiveram medo dos dentes da minha garrucha! Mas vocês hão de conhecer homem, sombrações do demônio! (…)

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Estranho incidente na vida do pintor Schalken (Sheridan Le Fanu)

“(…) ‘Não — não me deixem nem por um instante’, disse ela. ‘Estarei perdida para sempre se o fizerem.’

Para se chegar ao quarto de Gerard Douw era preciso atravessar um salão espaçoso, no qual eles estavam agora prestes a entrar. Gerard Douw e Schalken carregavam candeeiros, de modo que 6988659uma luz iluminava todos os objetos circundantes. Eles estavam entrando agora no salão espaçoso, o qual, como eu disse, se comunicava com o quarto de Douw, quando Rose deteve-se subitamente e, num sussurro que parecia tremer de horror, disse:

‘Meu Deus! Ele está aqui… ele está aqui! Vejam, vejam… lá vai ele!’

Ela apontou para a porta do quarto interno, e Schalken julgou ver o vulto de uma forma indefinida deslizar para dentro dele. Desembainhou a espada e, erguendo o candeeiro para iluminar mais fortemente os objetos do quarto, entrou no local para onde a sombra deslizara. Nada havia lá — nada senão a mobília que pertencia ao quarto, e contudo não restava dúvida de que algo se movera diante deles em direção ao quarto.

Um pavor terrível tomou-o, e o suor frio jorrou em enormes gotas sobre sua fronte; pavor que só aumentou por continuar a ouvir a insistência cada vez maior, as súplicas aflitas com as quais Rose lhes implorava para não a deixarem nem por um instante.

‘Eu o vi’, disse ela. ‘Ele está aqui! Tenho certeza… eu o conheço. Ele está ao meu lado… ele está comigo… ele está no quarto. Então, pelo amor de Deus, salvem-me, não se afastem de mim! (…)’ ”

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Ruídos no silêncio: a presença dos fantasmas na literatura brasileira (Maurício Cesar Menon)

“(…) Ao que tudo indica, as histórias de fantasmas brasileiras ocupam, especialmente, o ambiente rural. Isso é justificável ao se levar em conta que é esse o meio onde as lendas, crenças e superstiçõscary-images-of-real-ghosts-1024x819es se enraízam numa maior profundidade. Se a literatura inglesa revela os fantasmas habitando castelos ou casarões seculares, a brasileira os insere nas matas, em taperas ou à margem das estradas. Um fato, porém, pode ser verificado: há, ainda, muito silêncio, por parte dos estudos literários, em torno das histórias de fantasmas recorrentes no Brasil. Alguns ruídos, por vezes, quebram tal silêncio – como é o caso do estudo realizado por Gilberto Freyre em Assombrações do Recife Velho (1952). Não se pode olvidar que os fantasmas ajudam a escrever desde as histórias íntimas e familiares até as crônicas dos lugares, pois é no imaginário particular ou coletivo que eles insistem em aparecer. (…)”

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A volta do parafuso (Henry James)

“(…) O dia estava bastante cinzen­to, mas ainda não havia cessado a luz da tarde, o que me permitiu, ao transpor a porta, não apenas reconhecer as minhas luvas, que estavam sobre uma cadeira, junto TheTurnOftheScrewIllustrationByLyndWard565a uma grande janela, como, também, notar a presença de uma pessoa do outro lado da janela, a olhar para dentro através da vidraça. Bastou que eu desse apenas um passo na sala: a visão foi clara e instantânea. A pessoa que olhava, fixamente, para dentro, era a pessoa que já me havia aparecido. Surgiu, assim, de novo, não digo com maior nitidez, pois isso seria impossível, mas com uma proximidade que revelava um progresso em nossas relações e que me fez, logo que a vi, perder o fôlego e ficar gelada da cabeça aos pés. Era o mesmo, era o mes­mo, e eu podia vê-lo, essa vez, como o vira antes, da cintura para cima, pois, embora a sala de jantar estivesse situada no andar térreo, a janela não descia até o terraço em que ele estava de pé. Tinha o rosto muito per­to da vidraça, mas essa segunda e mais próxima visão teve sobre mim, por estranho que pareça, o único efeito de mostrar-me quão intensa havia sido a primeira. Não permaneceu ali senão alguns segundos — mas o bas­tante para convencer-me de que também me havia visto e reconhecido. Quanto a mim, era como se eu o houvesse estado olhando durante anos e o houvesse conhecido sempre. Essa vez, no entanto, aconteceu algo que não havia acontecido antes. Seu olhar, fixo em mim através da vidraça e ao longo do aposento, era profundo e duro como da primeira vez, mas afastou-se de minha pessoa por um momento, durante o qual pude segui-lo e ver que se fixava, sucessivamente, em vários objetos. Incontinenti, tive um duplo e instantâneo choque: a certeza de que ele não viera por minha causa. Viera em busca de outra pessoa. (…)”

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