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Poe, entre o cinema e a literatura: uma leitura intermidiática de “The Raven” (Caio Antônio Gomes e Genilda Azerêdo)

Resultado de imagem para the raven 2012 movie“Em The Raven (2012), filme dirigido por James McTeigue, além de termos Edgar Allan Poe como protagonista e alusões a vários de seus textos, a relação entre cinema e literatura é ainda mais adensada a partir da presença de questões ligadas à própria materialidade, socialidade e economia da mídia literária. Neste trabalho, fundamentado especialmente nos pressupostos teóricos de Rajewski (2012) e Moser (2006), propomos uma leitura intermidiática de The Raven, em que examinamos o processo de referenciação intermidiática realizada pelo cinema em relação à literatura. Duas conclusões foram alcançadas: i. o filme, ao tornar opaca a mídia literária, procurou esconder sua própria midialidade audiovisual; ii. The Raven se articula com uma série de discursos sobre o escritor estadunidense na contemporaneidade, contribuindo para o fortalecimento da posição de significante cultural de Edgar Allan Poe.”

Leia o ensaio completo aqui.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Ilha do Desterro. Republicamos aqui, com autorização dos próprios autores, com fins puramente acadêmicos.

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Nunca aposte sua cabeça com o diabo (Edgar Allan Poe)

“Era um pobre-diabo que vivia como um cão, é verdade, e foi de uma morte de cão que morreu; mas não era digno de censura por causa de seus vícios.

Procederam duma deficiência natural da mãe dele. Ela fez o que pôde para castigá-lo, enquanto ainda pequeno, porque  os deveres para sua bem ordenada mente eram sempre prazeres, e as crianças, como as postas de carne dura ou as modernas oliveiras gregas, são as melhores de se bater. Porém, pobre mulher! tinha a desgraça de ser canhota e uma criança surrada canhotamente o mais que podia ficar era canhotamente impune. O mundo gira da direita para a esquerda. Não se deverá, pois, açoitar uma criança da esquerda para a direita. Se cada golpe, na direção própria, lança fora uma má propensão, segue-se que cada pancada, numa direção oposta, soca para dentro sua parte de maldade. Estive muitas vezes presente aos castigos de Toby e, mesmo pelo modo com que era escoceado, podia perceber que ele se estava tornando cada vez pior, dia a dia. Afinal vi, com lágrimas nos olhos, que não havia quase esperança alguma a respeito do velhaco, e um dia, quando fora ele surrado até ficar de cara tão preta que poderia ser tomado como um africaninho e nenhum efeito se produzira, a não ser o de fazê-lo retorcer-se até desmaiar, não pude mais conter-me e, caindo de joelhos imediatamente, ergui a voz para profetizar a sua ruína.”

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O Sadismo em “A Causa Secreta” e “O Barril de Amontillado” (Nicole Ayres Luz)

“O trabalho propõe uma leitura comparativa dos contos ‘A Causa Secreta’, de Machado de Assis, e ‘O Barril de Amontillado’, de Edgar Allan Poe. Os objetivos são: (1) avaliar os comportamentos sádicos dos personagens Fortunato e Montresor – enquanto o primeiro é motivado por uma vingança, o segundo revela uma natureza sádica –, tomando por base as noções de monstruosidade, vício e virtude, apresentadas por Sade em Nota sobre Romances, e de perversidade, desenvolvida por Poe no conto ‘O Demônio da Perversidade’; e (2) analisar como, diante da narração de práticas sádicas, o leitor sente, ao mesmo tempo, repulsa, curiosidade e prazer, tornando-se cúmplice do sadismo estético. Pretende-se mostrar que o monstro humano, por sua proximidade e aparente normalidade, talvez seja ainda mais amedrontador. O narrador observador do conto de Machado tenta ser neutro, enquanto o narrador personagem do conto de Poe tenta se justificar ; ou seja, em nenhum dos dois casos há uma condenação dos atos dos personagens: as histórias se atêm aos fatos, cabendo ao leitor tirar suas próprias conclusões. Se a “causa secreta” da conduta de Fortunato e, por extensão, de Montresor, é o sadismo, a causa do sadismo, da prática do mal pelo mal, parece não ter uma explicação evidente. Permanecem em questão, portanto, as complexidades do comportamento humano.”

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O espaço ficcional e a instauração do terror nos contos de Poe (Marisa Martins Gama-Khalil)

the_fall_of_the_house_of_usher_by_guidedbygreed“A proposta do estudo é mostrar de que forma um elemento narrativo, o espaço, pode funcionar de forma decisiva para a construção do clima de terror em narrativas fantásticas. Para esse objetivo, tomaremos como objeto de análise seis contos de Poe: ‘Berenice, ‘A queda do solar de Usher’, ‘O gato preto’, ‘O barril do Amontilado’, ‘O retrato oval’ e ‘O poço e o pêndulo’, porque neles observa-se que a hesitação é construída especialmente pelas configurações espaciais e que tal hesitação, instalada tanto no plano da diegese quanto no da leitura, desencadeia a ambientação de terror nas narrativas. As teorias de T. Todorov, Louis Vax e Remo Ceserani serão os principais suportes teóricos para o entendimento da ambientação do terror/fantástico; no que tange à compreensão das construções espaciais, serão utilizadas as noções de heterotopia, utopia e atopia de Michel Foucault, e de espaço liso e estriado de Gilles Deleuze e Félix Guattari; e, por fim, o próprio Poe entra como voz teórica, com as suas filosofias, a da composição e a do mobiliário.”

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O poço e o pêndulo (Edgar Allan Poe)

“Talvez se houvesse passado uma meia hora, ou mesmo uma hora – pois só podia medir o tempo imperfeitamente –, quando ergui de novo os olhos para o forro. O que vi, então, encheu-me de confusão e de espanto. O balanço do pêndulo tinha aumentado de quase uma jarda de extensão. Como consequência natural, sua velocidade era, também, muito maior. Mas o que sobretudo me perturbou foi a ideia de que ele havia perceptivelmente descido. Observava agora – com que horror é desnecessário dizer – que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço cintilante, tendo cerca de trinta centímetros de comprimento, de ponta a ponta; as pontas voltavam-se para cima e borda de baixo era navalha, também, parecida pesado e maciço, estendendo para cima, a partir do corte, numa sólida e larga configuração. Estava justado a uma pesada haste de bronze e o conjunto assobiava ao balançar-se no ar.”

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Berenice (Edgar Allan Poe)

“O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia saído do aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! E não queria sair o espectro branco de seus dentes lívidos. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem uma pinta no esmalte, nem uma falha nas sbereniceuas pontas, que aquele breve tempo de seu sorriso não houvesse gravado na minha memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!… Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Nos múltiplos objetos do mundo exterior, só pensava naqueles dentes. Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação.”

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O retrato oval (Edgar Allan Poe)

“Esse gesto, porém, produziu um efeito totalmente inesperado. Os raios das numerosas velas (pois havia muitas) caíam agora dentro de um nicho da sala que até então estivera mergulhado na intensa sombra lançada por uma das colunas da cama. E assim vi, em plena luz, um retrato até então despercebido. Era o retrato de uma jovem no alvorecer da feminilidade. Olhei rapidamente para o retrato e depois fechei os olhos. Por que isso fizera, eu mesmo não o percebi a princípio. Mas, enquanto minhas pálpebras  permaneciam fechadas, resolvi na mente a razão de assim ter feito. Era um movimento impulsivo, para ganhar tempo de pensar, para certificar-me de que minha vista não me iludira, para acalmar e dominar a fantasia, forçando-a a uma contemplação mais serena e segura.”

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