Arquivo da tag: crueldade

O Gato Preto (Edgar Allan Poe)

“Certa noite, de volta a casa, bastante embriagado, de uma das tascas dos subúrbios, supus que o gato evitava minha presença. Agarrei-o, mas, nisto, amedrontado  com a minha violência, deu-me ele leve dentada na mão. Uma fúria diabólica apossou-se instantaneamente de mim. Cheguei a desconhecer-me. Parecia que minha alma original havia abandonado dBlack-Cate repente o corpo e uma maldade mais do que satânica, saturada de álcool, fazia vibrar todas as fibras de meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, deliberadamente, arranquei-lhe um dos olhos da órbita! Coro, abraso-me, estremeço ao narrar a condenável atrocidade.”

Leia aqui o conto completo, em inglês

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A imoralidade monstruosa: violência e medo em “A Quadrilha de Jacó Patacho”, de Inglês de Sousa (Raphael Camara & Júlio França)

“O ensaio propõe uma leitura do conto ‘A Quadrilha de Jacó Pascreen-shot-2015-04-02-at-8-46-30-pmtacho‘, de Inglês de Sousa, procurando descrevê-lo como um exemplo de ‘literatura do medo’ no Brasil. O objetivo principal é entender o papel dos personagens monstruosos na produção do medo estético em nossa literatura, a partir dos conceitos de monstruosidade desenvolvidos por Noël Carroll e Jeffrey Jerome Cohen.”

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“Minha mãe me matou, meu pai me comeu”: a crueldade nos contos de fadas (Karin Volobuef)

“Os contos de fadas, ou contos maravilhosos, têm como constante a presença de personagens malignos, a começar pelas bruxas, madrastas mal-intencionadas e o lobo mau. Fora isso, são inúmeros os episódios de brutalidade em que mãos são decepadas (‘A moça sem mãos’), olhos furados (‘Cinderela’), cabeças cortadas (‘O rgirl-with-no-hands-by-h-j-ford-4ei da montanha de ouro’) e corpos esquartejados (‘O camarada Lustig’). Para completar, incesto (‘Bicho peludo’), canibalismo (‘O junípero’), pacto com o demônio (‘Pele de Urso’) e outros temas ligados à maldade ou torpeza povoam diversos contos. Ao contrário da opinião comumente difundida, as narrativas que circularam pela boca do povo muitas vezes tratam de assuntos escabrosos e chocantes. Trata-se de algo hoje desconhecido da maioria dos leitores de contos de fadas, uma vez que muitas narrativas chegam ao público em adaptações que expurgam as passagens sanguinolentas. Além disso, contos como ‘O pobre rapaz na sepultura’ ou ‘História do jovem que saiu pelo mundo para aprender o que é o medo’ sequer costumam ser reeditadas. Os filmes de Walt Disney, por seu turno, alteraram bastante os enredos e, assim, colaboraram extensivamente para cunhar a ideia de historias ingênuas e inocentes. Em vista desse quadro, o objetivo do presente trabalho é abordar o viés ‘cruel’ e ‘assustador’ dos contos de fadas, buscando discutir sua participação no imaginário popular e sua recepção pelo público adulto e infantil.”

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O leitor cruel: sadismo e curiosidade em “A causa secreta”, de Machado de Assis (Jonatas Tosta Barbosa)

“(…) Ao longo do conto, o protagonista explicita a dificuldade de explicar, através do raciocínio lógico, a motivação do comportamento perverso, a causa do impulso cruel no ser humano e a ausência de uma pretensa função para a perversidade que não seja destrutiva. O protagonista não acredita que, após cometer-se um ato cruel, o indivíduo sinta satisfação. O remorso (ou a culpa) é a única reação possível, antagonizando com o sentimento de prazer obtido durante o ato cruel, que, por fim, faz com que o indivíduo sinta repulsa e horror por si próprio: ‘(…) no caso daquilo que denominei de perversidade, não somente o desejo de bem-estar não é excitado, mas existe um sentimento fortemente antagônico’ (POE, 2001, 346). (…)”

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Quem tem medo do Cobrador? – a sociedade e a literatura contemporânea no conto ‘O Cobrador’, de Rubem Fonseca (Luciano Cabral)

“(…) O que fez Rubem Fonseca foi criar um personagem que cobra o que não queremos dar facilmente, por medo de perder nossos privilégios. Assim, o Cobrador reage à nossa inércia de forma cruel e violenta. Não conseguimos mais pensar o mundo sem computadores e internet, sem automóveis, sem celulares e sem televisão; e também não podemos mais pensá-lo sem cercas e muros, sem presídios, sem fome e desigualdade, sem privilégios e sem pobreza. Do mesmo modo que a sociedade contemporânea, infelizmente, não consegue mais viver sem ter medo de cruzar com o Cobrador, a literatura brasileira não consegue ficar indiferente a ele.”

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A causa secreta (Machado de Assis)

causa_secreta“(…) Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. (…) E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. (…) Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. (…)”

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