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A alegoria e o fantasma no Gótico brasileiro: Cornélio Penna e Lúcio Cardoso (Fernando Monteiro de Barros)

Resultado de imagem para casa fantasmagorica“A literatura gótica, desde o seu início, apresenta um cenário que transcende as fronteiras endógenas das ilhas britânicas. O mundo mediterrâneo, em romances como o pioneiro O castelo de Otranto, de Horace Walpole (1764), bem como a Transilvânia de Drácula, remete a um espaço marcado por estruturas mais arcaicas face à modernização e ao “progresso” do norte europeu. Os conceitos de alegoria e de fantasma permitem endossar uma categoria do gênero Gótico exógena ao seu cenário europeu de origem: o Gótico brasileiro, que, em comum com o Gótico do sul dos Estados Unidos, o Southern Gothic, além de apresentar um cenário ambientado no novo mundo e de clima ensolarado, apresenta também uma cenografia textual marcada pelo passado latifundiário e escravocrata que, no século XX, avulta como ruína e espaço tenebroso. Neste contexto, inscrevem-se obras de alguns autores da literatura nacional, como Cornélio Penna e Lúcio Cardoso, romancistas que surgiram nos anos de 1930 e situaram-se em uma corrente antípoda ao regionalismo social da época. Em narrativas como A menina morta, de Penna, publicado em 1954, e Crônica da casa assassinada, de Lúcio, de 1959, encontramos o traço gótico do passado que assombra o presente, em cenários brasileiros da época colonial e imperial, fantasmaticamente representados enquanto ruína alegórica do Brasil patriarcal pré-republicano e pré-moderno, nos quais os personagens, alguns com traços vampirescos, também demonstram ressonâncias dos tipos frequentes dos romances góticos, como o aristocrata malévolo e a donzela perseguida. Assim, muito mais do que destacar uma literatura gótica produzida no Brasil por autores como Álvares de Azevedo e Cruz e Sousa, que não apresentam a cor local em seus textos “góticos”, tais textos literários apresentam aspectos do Gótico perpassando elementos que compõem a história e a cultura das terras brasileiras.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização do própriao autor, com fins puramente acadêmicos.


Ausência, silêncio e morte: a nação impossível na obra A menina morta, de Cornélio Penna (Maria Ângela de Araújo Resende)

Absence“[…] considerando-se a natureza do método, e mesmo alertando para o perigo dos rótulos, Costa Lima se vale do binarismo como um dos procedimentos de análise, partindo dos modos de representação do masculino e do feminino e suas trocas simbólicas nos espaços onde se desenvolve a trama. Para isto, contrapõe ao Grotão – incluindo a fazenda autárquica, os campos cultivados e a floresta que a cerca – a Corte, urbana e europeizada, traçando um desenho espacial marcado pela dicotomia entre os caminhos que partem da casa-grande. Um deles, o caminho da Corte, signo do caminho do masculino, se constitui através das personagens: o Comendador, o Barão, um dos filhos dos senhores, que, após um breve retorno, abandona o Grotão e passa a viver definitivamente na Corte. O outro, o caminho da clareira, metaforizando o caminho do feminino nas figuras de Mariana, a menina morta e Carlota. Se levarmos em conta essa relação, poderíamos nos valer de um plano histórico e de um plano mítico que irão dar sustentação, em parte, à proposição do autor, uma vez que ele estabelece um sistema de oposições entre natureza e cultura. O espaço da mata também funciona como contraponto ao espaço da fazenda e de seus moradores, também eles divididos, hierarquicamente: o Senhor e a Senhora, as parentas agregadas (D. Virgínia., D. Inacinha, Sinhá Rola e Celestina) o administrador português, a governanta alemã, os escravos de dentro e os escravos de fora, e são elementos importantes para identificarmos a passagem do real ao simbólico e dos fantasmas expressos nas formas de interdição.”

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No limiar da fronteira: aspectos do gótico na obra de Cornélio Penna (Ana Paula Santos)

“O presente trabalho propõe uma análise do romance Fronteira (1935), de Cornélio PennaFRONTEIRA, sob o viés da estética gótica. A obra de Penna, reconhecida por inaugurar na Literatura Brasileira uma ficção de teor psicológico, apresenta traços característicos da literatura gótica que, no século XVIII, foi consolidada por autores como Ann Radcliffe, Clara Reeve e Matthew Lewis, em sua fase de maior sucesso, e, posteriormente, por autores como Mary Shelley, Bram Stoker e Oscar Wilde – além de influenciar, até hoje, diversas literaturas e mídias. Tal estética compõe-se por um conjunto de características específicas que garantiram êxito à literatura gótica em sua capacidade de causar medo e prazer estético aos leitores do século XVIII. Dentre estas características, destacam-se a presença do sobrenatural, a exploração de crimes e tabus culturais, e a constituição de um topos literário que se define principalmente por locais abandonados, claustrofóbicos e aterrorizadores. Todos esses elementos aparecem de forma recorrente em Fronteira, motivo pelo qual o presente trabalho propõe uma leitura que leve em consideração tais aspectos no entendimento da obra. Ademais, busca-se, a partir desta análise, refletir sobre a influência exercida pela literatura gótica no âmbito literário, pois, mesmo sem se firmar como um gênero à parte, tal literatura constituiu-se como um fenômeno que transcendeu, cultural e historicamente, suas origens – fazendo-se presente até mesmo em nossa Literatura Brasileira.”

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O castelo (quase) vazio: algo de gótico em “Fronteira”, de Cornélio Pena (Josalba Fabiana dos Santos)

“O romance brasileiro Fronteira (1935), de Cornélio Penna, possui algumas características góticas bastante relevantes, sendo que a principal é a reconfiguração do castelo medieval no sobrado de uma típica família patriarcal mineira de fins do século XIX. Todavia, essas características surgem em meio a um conflito que se dá na literatura brasileira de um modo geral e na de Cornélio Penna em particular com a tradição europeia. É uma relação de constante admiração e repúdio. O gótico em Fronteira parece assim uma cicatriz, ele assinala o texto como o resultado desse embate, dessa luta.”

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Os limites do medo em “A menina morta”, de Cornélio Penna (Luiz Eduardo da Silva Andrade)

“A proposta deste texto é analisar as representações do medo em A menina mortadeadgirl (1954), almejando uma reflexão crítica e histórico-social direcionada a ponderar os reflexos desse sentimento na formação cultural brasileira. Aproximamos o medo à concepção de ‘horror artístico’ de Noël Carroll (1999), de modo que no romance de Cornélio Penna (1896-1958) ele teria sentido estético, funcionando como operador narrativo que impulsiona a história, sendo capaz de sustentar a tensão do enredo e engendrar as diversas formas de poder na trama. A obra é envolta em sombras que fortalecem o clima de mistério na fazenda do Grotão. Há um movimento de claro-escuro na construção da narrativa, que se estende à ambientação dos espaços físicos e psicológicos.”

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A identidade monstruosa do negro em “A menina morta” (Luiz Eduardo S. Andrade)

“(…) Para o sistema patriarcal, a única imagem do negro que é familiar é a do seu corpo, enquanto mão-de-obra usada na lavoura de café, dentre outros afazeres. O horror da Sinhá não está no simples fato de saber da mucama sem a face, mas na memória ‘reprimida’ que vem à tona quando se procura ver aquilo que tinha sido histórico-socialmente desfamiliarizado. O rosto da negra nesse caso, representaria a identidade fraturada no olhar do branco, pois este de alguma forma se reconhece naquilo que vê na face do outro, do contrário seria impossível estabelecer as relações de estranhamento e familiarização. Luiz Nazário (1998) define o ser monstruoso como sendo naturalmente deformado, de modo que nunca estará em conformidade com o homem, a sociedade, o espaço ou o momento histórico. Representa sempre uma diferença, uma anomalia do que está social e culturalmente instituído. O fato de Cornélio Penna trazer a baila em 1954, auge do desenvolvimento industrial do país com o governo Vargas, essa narrativa ambientada no século XIX, com figuras fantasmagóricas, é uma prova de que tamanho estranhamento frente ao sujeito negro só endossa a histórica ‘dívida’ que ficou para trás quando da formação do ideal nacional. Leia-se da literatura brasileira. Corroborando o que comentamos anteriormente sobre o valor histórico que Augusto Frederico Schmidt (1958) atribui ao romance corneliano. Ao apresentar esse episódio, bem como toda a narrativa de A menina morta, Cornélio Penna dialoga com a toda a ‘história do esquecimento’ no Brasil que de alguma forma legou ao negro papéis marginais na sociedade. (…)”

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Narrativas monstruosas (Josalba Fabiana dos Santos)

“(…) O narrador [de A menina mortaanother_random_horror_painting_by_otkman1995-d4n8luq (Cornélio Penna)] conta uma história eliminando muitas informações, desorientando o leitor. Agrava a situação o fato de que há pequenas narrativas paralelas à maior, produzidas pelas escravas e que contribuem ainda mais para a desorientação. É o ‘Decifra-me ou te devoro’ edipiano que retorna. A narrativa se coloca de maneira monstruosa, pois na medida em que se desenvolve destrói parte daquilo mesmo que produz, como Crono devorando os próprios filhos. E a comparação com Crono não é de forma alguma gratuita, pois é conhecida a associação semântica desse deus com o tempo (cronos). (…) No entanto, na medida em que a narrativa se escoa como um fluxo, ela invariavelmente aponta para o seu fim, para o seu próprio término. A narrativa toda se devora. Tal devoramento é suscitado inclusive pelos enigmas que vão sendo fartamente distribuídos ao longo do romance. Ou seja, aquilo que é narrado já chega ao leitor meio desintegrado, como que faltando pedaços.”

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