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O gótico literário no Brasil: Lygia Fagundes Telles (Camila Mello)

“(…) São os mistérios, os medos, as lembranças, os desejos e os fantasmas que rondam essa família que vão atribuir-lhe um caráter gótico, que vão explicitar fatos reprimidos e instigar a sensação do unheimlich. A questão da volta inconstante do passado na vida dos personagens como corpo assombrador, fantasma incansável, também é recorrente em outras narrativas góticas. Em Ciranda, o retorno do passado fica mais evidente na segunda parte do romance: antes de Virgínia sair do internato para retornar à casa de Natércio, ela rasga várias cartas como símbolo da superação de lembranças dolorosas. Além disso, afirma não ter memória sobre eventos da infância. Contudo, no contato com o pai, as irmãs, e os amigos, Virgínia percebe que o passado não havia sido realmente esquecido: ‘Mortos e vivos, voltaram todos (…) estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral’ (Telles, 1998: 100-101). O terror do passado é tal, que um dos motivos que a leva a se entregar à Rogério é que ele não trazia nenhuma lembrança, pois não fazia parte da ciranda da juventude. Talvez o maior motivo para tantas fugas de Virgínia – o internato, as saídas repentinas, a vontade de morrer, a viagem pelo mundo – seja exatamente a dificuldade de lidar com os fantasmas do passado, com os sentimentos que podem reaparecer e mostrar feridas. (…)”

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Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)

“(…) Deixou-se vestir passivamente. Adiantara-se muito, adiantara-se demais. ‘Agora ela sabe que eu sei.’ Cravou em Luciana o olhar aflito. A fisionomia da moça continuava impassível. ‘Ela finge que não se importa mas está com vontade de me esganar.’ Quando sentiu no pescoço seus dedos frios abotoando-lhe a gola, teve um arrepio misturado a uma estranha sensação de gozo. Viu-se morta, com a grinalda da sua primeira comunhão. Trazidas por Frau Herta, vestidas de preto, chegavam Bruna e Otávia debulhadas em pranto. ‘Nós te desprezamos tanto e agora você está morta!’ Aos pés do caixão, quase desfalecido de tanto chorar, o pai lamentava-se: ‘Era a minha filhinha predileta, a caçula, a mais linda das três!’. Muito pálido dentro da roupa escura, Conrado apareceu com um ramo de lírios. ‘Ia me casar com ela quando crescesse.’ Alguém se aproximou de Frau Herta. ‘Mas e onde está Daniel, por que não veio ao enterro?’ E Frau Herta, em voz bem alta, para quem quisesse ouvir: ‘Ele fugiu com Luciana, fugiram os dois, a estas horas estão se divertindo juntos, rindo e cantando era uma vez duas ninfas que moravam num bosque…’ (…)”

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