Arquivo da tag: aluísio azevedo

Do Naturalismo ao Gótico: as três versões de “Demônios”, de Aluísio Azevedo (Julio França e Marina Sena)

“O presente artigo tem por objetivo refletir sobre a influência da estética gótica na poética naturalista do escritor Aluísio Azevedo. Para tanto, propomos uma leitura de seu conto ‘Demônios‘, uma narrativa de cunho fantástico em que diversos elementos grotescos e mórbidos contribuem para a produção do horror como efeito de recepção. O conto de Azevedo possui três versões: uma em folhetim e duas em livro. A primeira vDEMONIOSersão foi publicada sob o formato de folhetim no periódico Folha Nova durante o mês de janeiro de 1891; a segunda faz parte da coletânea de contos Demônios, de 1893, organizada pelo próprio autor e publicada pela editora Teixeira Irmãos; e a terceira integra o volume Pegadas, de 1898, organizado e publicado pela editora Garnier. As duas últimas versões da narrativa são significantemente mais curtas do que o folhetim: a segunda difere da primeira por conta da exclusão de um longo episódio de cunho moralizante, e na terceira edição há modificações ainda mais significativas, pois Aluísio Azevedo retirou diversas passagens, sobretudo os trechos com teor sexual explícito e as descrições mais repulsivas. Pretende-se mostrar como essas mudanças, longe de eliminar o caráter gótico da narrativa de Azevedo, afastam-no ainda mais da fatura naturalista.”

Leia o ensaio completo

Anúncios

Horror e imaginação romântica: como Aluísio Azevedo se apropria de “A morte amorosa” de Théophile Gautier em “A Mortalha de Alzira” (Lainister de Oliveira Esteves)

tumblr_inline_mx00sjnljk1s2w7i1“O objetivo deste artigo é analisar como Aluísio Azevedo se apropria do conto “A morte amorosa”, de Théophile Gautier, para escrever A mortalha de Alzira. A publicação do romance de Aluísio Azevedo levanta uma série de questões acerca do debate entre o Realismo e o Naturalismo na literatura brasileira e indica como a chamada imaginação romântica, que agrega o horror e o fantástico, é posta em segundo plano na segunda metade do século XIX. A adaptação empreendida por Aluísio Azevedo revela as tensões entre modelos literários distintos que buscavam espaço no campo literário e expressa o contraste entre o gosto popular e os processos de canonização da literatura brasileira.”

Leia o ensaio completo


A questão do duplo em duas narrativas brasileiras (Maurício Cesar Menon)

images-2“(…) o tema do duplo, no século XIX, agrega um valor maior aos textos que se classificam nas categorias do terror/horror, suspense/mistério. Ao se olhar para trás, nos primórdios da ficção gótica, o que se encontra são as dualidades trabalhadas nas figuras do herói/heroína e do vilão, os quais, na maioria das vezes, não conseguiam fugir às convenções que o gênero impunha, o que os tornava triviais e dedutíveis. Nem é possível, falar, nesse sentido em duplo; o que se tinha era mais um jogo de ações que se antagonizavam no perfil prescrito do bem, encarnado no herói ou na heroína, e no do mal, mérito exclusivo do vilão. (…)”

Leia o ensaio completo


A mortalha de Alzira (Aluísio Azevedo)

“(…) – Fujamos! Segredou Alzira, puxando pelo braço o companheiro.

 – Não! Hei de beber-lhe primeiro o sangue! Hei de beber o sangue de todo aquele que pretende68305169r arrancar-te dos meus braços!

 E vergou-se sobre o cadáver, colando-lhe os lábios a uma ferida do peito que sangrava

 – Ângelo! Ângelo! partamos! Olha que aí vem o dia! exclamou a cortesã.

 Ângelo ergueu então a cabeça e notou que, com efeito, em volta dele tudo começava a esbater-se à luz da aurora. O próprio cadáver de cuja ferida acabava ele de despregar a boca cheia de sangue, nada mais era do que uma transparente sombra, estendida a seus pés. (…)”

Leia A mortalha de Alzira, de Aluísio Azevedo


Demônios (Aluísio Azevedo)

“(…) O médico estava estendido na sua cama, embrulhado no lençol. Tinha contraída a boca e os olhos meio abertos.

Chamei-o; segurei-lhe o braço com violência e recuei aterrado, porque lhe senti o corpo rígido e frio. Aproximei, trêmulo, a minha vela contra o seu rosto imóvel; ele não abriu os olhos; não fez o menor gesto. E na palidez das faces notei-lhe as manchas esverdeadas da carne que vai entrar em decomposição.demnios-em-quadrinhos-de-aluisio-azevedo-por-guazzelli-14593-MLB229019523_3262-O

Afastei-me.

E o meu terror cresceu. E apoderou-se de mim o medo do incompreensível; o medo do que se não explica; o medo do que se não acredita. E saí do quarto querendo pedir socorro, sem conseguir ter voz para gritar e apenas resbunando uns vagidos guturais de agonizante.

E corri aos outros quartos, e já sem bater fui arrombando as portas que encontrei fechadas. A luz da minha vela, cada vez mais lívida, parecia, como eu, tiritar de medo.

Oh! que terrível momento! que terrível momento! Era como se em torno de mim o Nada insondável e tenebroso escancarasse, para devorar-me, a sua enorme boca viscosa e sôfrega. Por todas aquelas camas, que eu percorria como um louco, só tateava corpos enregelados e hirtos.

Não encontrava ninguém com vida; ninguém!”

Leia a primeira versão, de 1891

Leia a segunda versão, de 1893

Leia a terceira versão, de 1898