Arquivo da tag: afonso arinos

Um passeio pelo sertão: as fronteiras do medo na literatura nacional (Pedro Sasse)

“No âmbito dos estudos da literatura do medo nacional encontramos, com certa frequência, três principais espaços narrativos: a selva, cheia de seus mistérios e encantos, ambiente propício para o irrserra-da-piedade-super-lua-19-03-2011omper do medo sobrenatural; a metrópole, onde o confinamento urbano faz florescer os medos naturais, os medos do Outro, de assaltos, assassinatos, sequestros; e o sertão, espaço pródigo em narrativas tanto de temática sobrenatural quanto natural. O presente artigo visa justamente à análise do híbrido espaço sertanejo na literatura do medo, a fim de caracterizá-lo como local limítrofe entre o ambiente do medo natural e o ambiente do medo sobrenatural. Para tanto, utilizaremos os contos ‘Assombramento‘, ‘A Garupa‘ e ‘A feiticeira, do escritor mineiro Afonso Arinos. Pretende-se, assim, mostrar como a própria configuração espacial do sertão – sua urbanização precária, a pouca densidade populacional, o entorno muito mais selvagem do que o que das grandes cidades – propicia esse caráter dual ao espaço. Nas narrativas analisadas, observaremos como, em um mesmo ambiente, há a mescla entre o medo sobrenatural, construído, principalmente, a partir do imaginário popular, dos ‘causos fantásticos, e o natural, notável pela presença da violência dos personagens de natureza agreste, típicos do sertão.”

Leia o ensaio completo

Anúncios

A feiticeira (Afonso Arinos)

“(…) – Menino! menino! o bracinho tirado do corpo ainda quente, há de mexer tachada de cale ao logo. Quem o beber, mexido assim, na hora de torrar, perde logo o pouco-­caso e apanha rabicho. E eu tenho encomenda… Deixe ver: uma, duas, três pessoas que querem remédio para desprezo… A Rosa ainda ontem me falou nisso. Ora! num instante o Quim larga da outra: é só o tempo de beber o café, das mãos da Rosa. Eu apronto a coisa: tiro o bracinho do menino… Hei de afogá‐lo primeiro: não custa muito. Quando pego algum nhambu na urupuca, ele nem chega a sofrer: sei dum lugar no pescoço que é só apertar um pedacinho de tempo – o bichinho morre logo. Assim o menino: é mesmo que passarinho… (…)”

Leia aqui o conto completo


A garupa (Afonso Arinos)

“(…) Toquei para diante. Ah! patrão! não gosto de falar no que foi a passagem do ribeirão aquela noite! Não gosto de lembrar a descida do barranco, a correnteza, as pedras roliças do fundo d’água, aq1920x1080_android-jones-fan-horse-men-fantasy-horror-death-wings-HD-Wallpaperuele vau que a gente só passa de dia e com muito jeito, sabendo muito bem os lugares. Basta dizer que a água me chegou quase às borrainas da sela, e do outro lado, cavalo, cavaleiro e defunto – tudo pingava!

Eu já não sentia mais o meu corpo: o meu, o do defunto e o do cavalo misturaram-­se num mesmo frio bem frio; eu não sabia mais qual era a minha perna, qual a dele… Eram três corpos num só corpo, três cabeças numa cabeça, porque só a minha pensava… Mas quem sabe também se o defunto não estava pensando? Quem sabe se não era eu o defunto e se não era ele que me vinha carregando na frente dos arreios? (…)”

Leia aqui o conto completo


Assombramento (Afonso Arinos)

“(…) Súbito, uma luz indecisa, coada por alguma janela próxima, fê-lo vislumbrar um vulto branco, esguio, semelhante a uma grande serpente, coleando, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavsnapshot_00-40-00_2011-02-11_12-30-35as da terra, misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.

Manuel estacou, com as fontes latejando, a goela constrita e a respiração curta. A boca semi-aberta deixou cair a faca: o fôlego, a modo de um sedenho, penetrou-lhe na garganta seca, sarjando-a e o arneiro roncou como um barrão acuado pela cachorrada. Correu a mão pelo assoalho e agarrou a faca; meteu-a de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a garrucha e apontou para o monstro; uma pancada seca do cão no aço do ouvido mostrou-lhe que sua arma fiel o traía. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou fogo. O arneiro arrojou contra o monstro a arma traidora e gaguejou em meia risada de louco:

– Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de fiança! Tiveram medo dos dentes da minha garrucha! Mas vocês hão de conhecer homem, sombrações do demônio! (…)

Leia o conto completo