Sobre o prazer derivado de objetos de terror (John Aikin e Anna Laetitia)

7c759f55-e6b6-4217-a26e-2bc6f0f118ed“John Aikin foi um escritor e médico inglês formado pela Universidade de Edimburgo. Mudou-se em 1792 para Londres, onde, tempos depois, deixaria de exercer seus trabalhos como cirurgião para se dedicar a questões relacionadas à liberdade religiosa e de consciência. Seus estudos trouxeram contribuições significativas para a medicina e para os estudos literários, relacionando, por vezes, as duas áreas – como em seus ensaios que associam as novas descobertas científicas ao aprimoramento da poesia. Entre suas realizações, destacam-se o trabalho como editor da The Monthly Magazine e o lançamento de Evenings at home (1792-1796), uma coleção de histórias infantis escritas em conjunto com sua irmã, a também escritora Anna Laetitia Barbauld.

Engajada politicamente, Anna Laetitia atuou como poeta, ensaísta, editora, e também como professora na Palgrave Academy. Seu trabalho enquanto educadora serviu de modelo para práticas pedagógicas durante muitos anos, e sua atuação como crítica e ensaísta colaborou para o estabelecimento do cânone da literatura do século XVIII. Entre suas obras, destacam-se a série de livros Lessons for Children (1778-1779) – seu mais notório trabalho, fundamental para o desenvolvimento da literatura infantil – e o poema que censurava a participação britânica nas guerras, Eighteen Hundred and Eleven (1812), cujas duras críticas recebidas deram fim a sua carreira literária.

Anna Laetitia e John Aikin publicaram juntos o livro Miscellaneous pieces, in prose (1773), de onde retirou-se Sobre o prazer derivados de terror, texto em que analisam o comportamento humano diante de cenas e objetos terríveis. Os dois irmãos buscam, no ensaio, compreender a intensidade e a variedade de sensações – do espanto à curiosidade, do estranhamento ao prazer – provocadas por cenas de horror artificialmente criadas através das artes literárias.”

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


Gongo-velho (Rodrigo Octávio)

sparrow-hall-farm-3-a-dark-and-eerie-fine-art-photographic-print-of-an-abandoned-suffolk-farmhouse-lee-thornberry“Rodrigo Octávio (1866-1944) foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo ocupado a cadeira de nº 35. Sua biografia, no entanto, é marcada por atividades desenvolvidas no âmbito do Direito: além de advogado, promotor público e juiz, foi, a partir de 1929, ministro do Supremo Tribunal Federal. Participou, ainda, de importantes eventos internacionais, tais como as Conferências de Haia (1899-1907), além de ter sido um dos subscritores  do Tratado de Versalhes (1919).

Em A Literatura Brasileira (1870-1895), o escritor e crítico Valentim Magalhães elogia a obra poética de Rodrigo Octávio pela “distinção da forma e a elevação das ideias”. De fato, sua literatura ficou mais conhecida pelas poesias, tais como as de Pâmpanos (1886) e de Poemas e idílios (1887). Como ficcionista, escreveu algumas narrativas em que personagens e atos perversos estão no centro dos acontecimentos. É o caso, por exemplo, de Bodas de sangue, publicada em 1895 na Revista Brasileira. Nela, apresenta-se a história de um mascate que se dirige a um engenho de açúcar, onde precisaria negociar com um fazendeiro bastante rígido. Durante sua estadia, descobre que a bela filha do senhor tinha um caso com um dos escravos. Após revelar a situação ao fazendeiro, este castiga o negro, retalhando-o inteiro, e ainda obriga o vendedor ambulante a se casar com a moça.

Gongo-Velho, texto selecionado para compor este volume, foi publicado em 1914, em Águas Passadas. Como a obra anteriormente citada, o conto também enfoca a crueldade e as perversões que envolviam as relações entre fazendeiros e seus escravos. A partir de uma narrativa em moldura, um ex-escravo conta, a um viajante, sobre a revolta dos escravos na fazenda do Gongo-Velho e a subsequente vingança empreendida pelo senhor daquelas terras. Com estruturas ficcionais semelhantes às do Gótico sulista norte-americano, o conto explora ao máximo as tensões e os horrores do passado escravocrata brasileiro.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Macário e Satã: viagem fantástica, diálogo crítico (Andréa Sirihal Werkema)

O Satã Conduz Macário pelo Braço, João Fahrion, 1940“O Primeiro Episódio do drama Macário, de Álvares de Azevedo, relata uma viagem feita por um jovem estudante, rumo à cidade na qual irá estudar. O estudante Macário, protótipo de ultrarromântico, cético, irônico e desencantado, flerta abertamente com o lado negativo da existência, o que culmina no encontro, em estalagem de beira da estrada, com um Desconhecido, que se revela, posteriormente, como o próprio Satã. Interessa discutir as implicações advindas de uma escolha pela trajetória fantástica em meio ao Romantismo brasileiro, tão marcado pelas demandas ‘realistas’ de um projeto de formação de identidade nacional via literatura. Analisaremos, portanto, as oscilações do fantástico no Primeiro Episódio de Macário, de forma a averiguar a filiação do drama de Azevedo a um outro Romantismo, que recusa o ‘veto ao ficcional’, em prol de uma literatura subjetivista ao extremo, que deforma a realidade com o intuito de, criticamente, sugerir outros caminhos para a formação da chamada ‘literatura nacional’.”

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do I Colóquio “Vertentes do Fantástico na Literatura”. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


Aquele olhar (Rocha Pombo)

images (1)“Nascido em Morretes, cidade da região litorânea do Paraná, Rocha Pombo (1857-1933) teve uma carreira intelectual intensa. Aos 18 anos, já trabalhando como professor, escreveu seu primeiro artigo sobre educação, dando início ao que viria a ser uma extensa produção, sobretudo no campo da História. Em paralelo à sua abundante produção bibliográfica, Rocha Pombo desenvolveu uma ativa atuação como homem público, fundando colégios, criando e dirigindo jornais e sendo eleito Deputado Provincial. Ele foi membro tanto do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro quanto da Academia Brasileira de Letras.

Abolicionista e republicano de primeira hora, Rocha Pombo afastou-se da política após a proclamação da República, por motivos familiares, quando passou a se dedicar mais à carreira de escritor. Ele é autor dos dez volumes da História do Brasil (1918), obra que atingiu vinte e três edições e foi adotado como livro oficial para o ensino da disciplina no país. No campo da literatura, o romance No hospício (1905) talvez seja a sua principal obra, apesar da recepção crítica desfavorável à época, ainda dominada por concepções artísticas de cunho naturalista. Descrito por Andrade Muricy como precursora do romance metafísico no Brasil, a narrativa chama atenção pela exploração de um tema caro à tradição da literatura fantástica: o duplo. Tomando como pano de fundo o ambiente opressivo de obsessão e loucura do hospício, Rocha Pombo vale-se de convenções decadentes e simbolistas para compor um prosa poética que mescla misticismo, espiritualidade e terror.

Aquele olhar, selecionado para esta antologia, foi publicado em 1911, no livro Contos e pontos. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, em que o narrador-protagonista, caminhando em meio a ruínas não plenamente identificadas, depara-se com um vulto. Ante a misteriosa figura, que não lhe responde aos chamados, o narrador especula sobre quem ou o que seria a disforme aparição, até que o enigmático ser decide narrar a trágica história de sua ‘dupla’ morte.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Um sonho dantesco: uma leitura de “O navio negreiro”, de Castro Alves (João Pedro Bellas)

navio“O artigo propõe uma leitura do poema O navio negreiro, de Castro Alves, que busca dar conta das imagens empregadas pelo poeta para lidar com as questões da escravidão. A abordagem terá como objetivo demonstrar que, para dar conta dos horrores engendrados pelo sistema escravocrata, o autor recorreu a uma série de imagens comuns ao Gótico literário. Além disso, será analisada com mais detalhe a imagem do mar, com vistas a compreender o seu significado no poema.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Crioula, USP, n. 23 (2019). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


A monja (Thomaz Lopes)

womanmonk“Thomaz Lopes (1879-1913) tem sua imagem e sua produção artística bastante ligadas ao período da Belle Époque carioca e, consequentemente, à francofilia característica desse momento histórico. Como homem de letras, publicou doze livros, entre poesias, contos, crônicas e um romance. Como diplomata, participou de missões no Uruguai, na Bélgica, na Suíça, na Espanha e na França, países sobre os quais escreveu artigos para jornais e livros de viagens como Corpo e alma de Paris (1909), Terras de França (1909) e Paisagens de Espanha (1910).

É especialmente em Contos da vida e da morte (1907) e em O cisne branco (1910) que Thomaz Lopes apresenta narrativas perversas, nas quais o medo e emoções correlatas são tematizados e acionados como efeito de recepção. Em Defunto (1907), por exemplo, o tema é o horror de ser enterrado vivo; já em Espectro (1907), a morte, andando por um campo de guerra, é a personagem principal; há, ainda, Capitão Maciel, 3ª Companhia, relato sobre uma aparição nos moldes da ghost story oitocentista. Destaca-se também Uma aposta (1910), conto que dialoga intimamente com A Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo, tanto pela presença de um grupo em uma taverna, quanto pela história de um corpo que, embora velado em uma igreja, pode ainda estar vivo.

Os muitos e explícitos elementos que aproximam a obra de Lopes das narrativas de Edgar Allan Poe fazem-se presentes em A monja. Escrita em 1899 e publicada em Contos da vida e da morte, a trama consiste na história de Mariana, uma religiosa cujo destino é marcado pela morte de familiares e do antigo noivo. Em uma atmosfera mórbida, a personagem busca conforto nos subterrâneos de um convento. Nesse local, a protagonista é espreitada por um gato preto e depara-se com a figura do noivo morto.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


I Semana do Romance Gótico – USP – 2019

Caderno de Resumos – I Semana do Romance Gótico