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A insólita presença da personagem sem voz em “O Grande Deus Pã”, de Arthur Machen (Shirley de Souza Gomes Carreira)

Resultado de imagem para the great god pan“Na obra do escritor galês Arthur Machen, essa dualidade assume características próprias, uma vez que mistura as vertentes da literatura de horror a descobertas científicas e à consequente inquietação que produziram na sociedade vitoriana. Seu envolvimento com o ocultismo levou-o a distanciar-se do modelo gótico e a incorporar em seus textos a crença mística de que o mundo ordinário oculta outro mundo, cujo desvelamento pode levar à loucura e à morte. Em O grande deus Pã, cuja primeira versão foi publicada no periódico The Whirlwind, em 1890, Raymond, um cientista especialista em fisiologia cerebral e praticante de medicina transcendental, opera o cérebro de uma jovem, Mary, reorganizando partes do mesmo, de modo que ela possa encontrar “O grande deus Pã”, metáfora do conhecimento absoluto.”

Leia o ensaio completo aqui.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos anais do III Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional (SEPEL 2016). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.

 


O Caso de Ruth (Júlia Lopes de Almeida)

Publicado por Júlia Lopes de Almeida em 1903, na coletânea de contos intitulada Ânsia Eterna, “O Caso de Ruth” se inicia com o pedido de casamento proposto por Eduardo Jordão à protagonista que dá nome ao conto. Ruth é descrita como uma jovem de 23 anos, recatada, bem instruída, “pura demais para viver na terra”. Ao que tudo indica, ela parece guardar profundos sentimentos por seu pretendente, e, justamente por isso, antes de firmar o acordo de casamento, revela a ele um terrível segredo de seu passado: “Eu não sou pura!” – confessa a personagem –  “Amo-o muito para o enganar. Eu não sou pura!”.

 A confissão colocará em xeque o futuro matrimônio, e, através dela, Júlia Lopes de Almeida revela o quão frágeis podem ser as relações familiares, e, também, quão aterrorizante pode ser a vivência da mulher em sociedade. Dentro do casarão “sombrio, monótono e saudoso” que serve de espaço narrativo, Ruth e seu noivo serão vítimas do fantasmagórico retorno do passado, marcado pela crueldade e pela violência – passado este que acabará por definir um destino nada otimista para ambos os personagens.

Nesse sentido, o conto de Júlia Almeida não só se utiliza das convenções próprias da ficção gótica, como também se insere em um viés particular desta literatura: a tradição do Gótico feminino, cuja principal característica é retratar no plano da ficção as ansiedades e os horrores relativos ao universo da mulher.

Leia aqui o conto “O Caso de Ruth”


A guarida de pedra (Fagundes Varela)

Mais conhecido por sua obra poética, Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875) também explorou a prosa de ficção, tendo publicado alguns contos na década de 1860, no Correio Paulistano. Essas narrativas, ainda pouco estudadas pela crítica e a historiografia brasileiras, se notabilizam por seu caráter imaginativo e por elementos afinados com a escrita gótica, sobretudo aquela que floresceu na Inglaterra do século XVIII, tais como o cenário sublime e o retorno fantasmagórico do passado.

O conto “A guarida de pedra”, que integra o projeto inacabado Crenças Populares, nos apresenta uma narrativa em moldura. Um velho pescador conta ao primeiro narrador a história de uma guarida na fortaleza de Bertioga, que acreditavam ser assombrada por visões de fantasmas e espectros após a última badalada da meia-noite.

Leia aqui o conto “A guarida de pedra”


O abcesso de fixação (Gastão Cruls)

“O abcesso de fixação”, de Gastão Cruls, faz parte da coletânea de contos Ao embalo da rede, lançado pela Livraria Castilho em 1923. Afim às temáticas de medo, Cruls explora em suas obras assassinatos, aparições, psicoses e até licantropia.

Sob a epígrafe “O que mais assusta no louco é a sua razão”, de Anatole France, “O abcesso de fixação” é centrado na confissão de um assassino sobre a misteriosa morte de uma prostituta no Rio de Janeiro. Narrado do ponto de vista de um acompanhante de cabine do criminoso, a história segue um ritmo crescente, no qual o Dr. Cristiano Thompson, médico e pai de família, progressivamente se revela um completo psicopata, envolvendo o narrador em uma história cativante e aterrorizante ao mesmo tempo.

Característica comum na obra de Cruls, o conto explora os conhecimentos da medicina moderna como uma forma de causar medo no leitor. O abcesso de fixação, processo terapêutico que consiste em agravar uma infecção localizada a fim de combater uma infecção generalizada, ganha novas significações quando o médico, assolado pela morte de uma jovem paciente, se convence que a cura para suas angústias reside no assassinato de uma jovem desconhecida. Em ritmo de suspense psicológico, Cruls nos apresenta um autêntico e envolvente representante da literatura de crime nacional.

Leia aqui o conto “O abcesso de fixação”


O Juramento (Humberto de Campos)

Originalmente publicado em 1932 pelo escritor maranhense Humberto de Campos (1886-1934), o conto “O Juramento” faz parte da coletânea Monstros e Outros Contos. Nesta história, um malsucedido pedido de casamento provoca um homem a jurar possuir o coração de uma moça a qualquer custo. Entre índios antropófagos, selva densa e descrições horríveis, o conto tem seu apogeu em uma cena de canibalismo.

A bordo de um navio que acaba de deixar o porto francês de Havre, o narrador conversa com Ramon Gonzalez y Gonzalez, um velho industrial argentino de uns 70 anos. A narrativa em moldura, então, passa a voz para este, que conta que, quando tinha 40 anos, experienciou o momento mais terrível de sua vida. Apaixonado por Consuelo, uma moça de 16 anos, Ramon pede-a em casamento. Diante da recusa, Ramon mostra-se conformado, mas secretamente não admite ser rejeitado. Decepcionado e ressentido, ele faz um juramento de morte: “Aquele coração havia de, um dia, pertencer-me”.

Ramon, desejando manter a amizade, convida Consuelo e seu pai a visitá-lo. A fim de mostrar-lhes as terras recentemente adquiridas, Ramon leva-os ao Alto Soledade, um local de mata virgem, densa e escura, onde a copa das árvores não permite que gotas de chuva ou raios de sol penetrem a floresta. Viajando por longo tempo, a caravana é surpreendida por índios canibais, que os capturam e os aprisionam. No caminho até a aldeia, porém, Ramon confessa que a visão de Consuelo, seminua, seios expostos, martirizada e ensanguentada, excitava-lhe pensamentos bestiais e diabólicos. Marchar para a morte, diz ele, acalmava-o porque Consuelo, que não seria dele, também nunca seria de nenhum outro.

Ainda excitado com o martírio infligido à Consuelo, Ramon descreve em pormenores o esquartejamento da moça, sendo preparada para ser cozida e devorada pelos índios. Ele assiste à cena passivamente, como se tudo fizesse parte de um sonho. Em uma narração que mistura horror e satisfação, o conto termina com o juramento sendo cumprido. Ramon, ao ser indagado por um índio sobre a parte humana que gostaria de comer, indica, entre vísceras repugnantes, o coração de Consuelo. Ele o devora e vinga-se da rejeição sofrida.

Leia aqui o conto “O Juramento”


Violação (Rodolfo Teófilo)

“Violação” (1898), conto do escritor naturalista Rodolfo Teófilo (1853-1932) foi publicado, pela primeira vez, pela Tipografia Minerva. Teófilo, para retratar a epidemia de cólera-morbo, utiliza-se largamente de imagens gráficas de morte, sexo e violência, além de descrições tétricas sobre o espaço narrativo. Em “Violação”, será precisamente a temática da transgressão sexual a mais profundamente explorada.

O conto inicia-se em primeira pessoa e trata da sombria infância do narrador, quando este presenciou a epidemia. Apesar de nos parecer, num primeiro momento, que o texto trataria apenas sobre as impressões de um homem em relação a um episódio traumatizante de sua infância, o conto oferece uma segunda narrativa. O narrador, depois de contar parte da sua vida, revela que ouviu seu pai e um amigo conversarem sobre “os horrores da peste”, mas que não lhe foi possível acompanhar a conversa até o fim. Apenas anos depois, quando o protagonista retorna à pequena aldeia, que a segunda narrativa será revelada.

O homem, que anos antes conversava com seu pai, conta, ao primeiro narrador, a sua própria experiência da epidemia. A segunda história trata-se de uma narrativa emoldurada e narra, em primeira pessoa, o episódio de um rapaz que, com catalepsia,  vê sua noiva, morta em virtude da doença, ser abusada sexualmente por dois coveiros, no cemitério. O horror do episódio necrófilo explicita, como em muitas narrativas góticas, uma visão de mundo negativa da humanidade e de sua capacidade racional: “a dissolução é a glorificação da matéria, o triunfo da animalidade”.

Leia aqui o conto “Violação”


O estudante e os monges (Couto de Magalhães)

Couto de Magalhães (1837-1898) escreveu uma série de contos que, segundo ele, refletiam a vida cotidiana e acontecimentos tristes que se passavam naquele momento. O primeiro deles era “O estudante e os monges”, uma das narrativas de horror mais antigas da Literatura Brasileira, publicado na Revista da Academia de São Paulo, em 1859.

No conto, Antônio relata a história contida em um manuscrito que ele teria encontrado na biblioteca do mosteiro de São Bento. O narrador afirma que “demônios vagueiam pelo mundo, […] correm e tripudiam por sobre os cemitérios alta noite, quando o céu é triste e a terra é muda” na forma de animais ou até mesmo de pessoas que servem a Deus. Para provar, narra a noite em que dois monges saem em direção à casa de duas cortesãs, onde se inicia uma orgia da qual diversos homens e mulheres participam, sendo os frades os mais entusiasmados. Um estudante, no entanto, é o único a não compartilhar dos acontecimentos, e, assim, é capaz de salvar-se quando os monges revelarem suas verdadeiras formas…

Leia aqui o conto “O estudante e os monges”