Arquivo da categoria: Ficção

Gongo-velho (Rodrigo Octávio)

sparrow-hall-farm-3-a-dark-and-eerie-fine-art-photographic-print-of-an-abandoned-suffolk-farmhouse-lee-thornberry“Rodrigo Octávio (1866-1944) foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo ocupado a cadeira de nº 35. Sua biografia, no entanto, é marcada por atividades desenvolvidas no âmbito do Direito: além de advogado, promotor público e juiz, foi, a partir de 1929, ministro do Supremo Tribunal Federal. Participou, ainda, de importantes eventos internacionais, tais como as Conferências de Haia (1899-1907), além de ter sido um dos subscritores  do Tratado de Versalhes (1919).

Em A Literatura Brasileira (1870-1895), o escritor e crítico Valentim Magalhães elogia a obra poética de Rodrigo Octávio pela “distinção da forma e a elevação das ideias”. De fato, sua literatura ficou mais conhecida pelas poesias, tais como as de Pâmpanos (1886) e de Poemas e idílios (1887). Como ficcionista, escreveu algumas narrativas em que personagens e atos perversos estão no centro dos acontecimentos. É o caso, por exemplo, de Bodas de sangue, publicada em 1895 na Revista Brasileira. Nela, apresenta-se a história de um mascate que se dirige a um engenho de açúcar, onde precisaria negociar com um fazendeiro bastante rígido. Durante sua estadia, descobre que a bela filha do senhor tinha um caso com um dos escravos. Após revelar a situação ao fazendeiro, este castiga o negro, retalhando-o inteiro, e ainda obriga o vendedor ambulante a se casar com a moça.

Gongo-Velho, texto selecionado para compor este volume, foi publicado em 1914, em Águas Passadas. Como a obra anteriormente citada, o conto também enfoca a crueldade e as perversões que envolviam as relações entre fazendeiros e seus escravos. A partir de uma narrativa em moldura, um ex-escravo conta, a um viajante, sobre a revolta dos escravos na fazenda do Gongo-Velho e a subsequente vingança empreendida pelo senhor daquelas terras. Com estruturas ficcionais semelhantes às do Gótico sulista norte-americano, o conto explora ao máximo as tensões e os horrores do passado escravocrata brasileiro.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Aquele olhar (Rocha Pombo)

images (1)“Nascido em Morretes, cidade da região litorânea do Paraná, Rocha Pombo (1857-1933) teve uma carreira intelectual intensa. Aos 18 anos, já trabalhando como professor, escreveu seu primeiro artigo sobre educação, dando início ao que viria a ser uma extensa produção, sobretudo no campo da História. Em paralelo à sua abundante produção bibliográfica, Rocha Pombo desenvolveu uma ativa atuação como homem público, fundando colégios, criando e dirigindo jornais e sendo eleito Deputado Provincial. Ele foi membro tanto do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro quanto da Academia Brasileira de Letras.

Abolicionista e republicano de primeira hora, Rocha Pombo afastou-se da política após a proclamação da República, por motivos familiares, quando passou a se dedicar mais à carreira de escritor. Ele é autor dos dez volumes da História do Brasil (1918), obra que atingiu vinte e três edições e foi adotado como livro oficial para o ensino da disciplina no país. No campo da literatura, o romance No hospício (1905) talvez seja a sua principal obra, apesar da recepção crítica desfavorável à época, ainda dominada por concepções artísticas de cunho naturalista. Descrito por Andrade Muricy como precursora do romance metafísico no Brasil, a narrativa chama atenção pela exploração de um tema caro à tradição da literatura fantástica: o duplo. Tomando como pano de fundo o ambiente opressivo de obsessão e loucura do hospício, Rocha Pombo vale-se de convenções decadentes e simbolistas para compor um prosa poética que mescla misticismo, espiritualidade e terror.

Aquele olhar, selecionado para esta antologia, foi publicado em 1911, no livro Contos e pontos. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, em que o narrador-protagonista, caminhando em meio a ruínas não plenamente identificadas, depara-se com um vulto. Ante a misteriosa figura, que não lhe responde aos chamados, o narrador especula sobre quem ou o que seria a disforme aparição, até que o enigmático ser decide narrar a trágica história de sua ‘dupla’ morte.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


A monja (Thomaz Lopes)

womanmonk“Thomaz Lopes (1879-1913) tem sua imagem e sua produção artística bastante ligadas ao período da Belle Époque carioca e, consequentemente, à francofilia característica desse momento histórico. Como homem de letras, publicou doze livros, entre poesias, contos, crônicas e um romance. Como diplomata, participou de missões no Uruguai, na Bélgica, na Suíça, na Espanha e na França, países sobre os quais escreveu artigos para jornais e livros de viagens como Corpo e alma de Paris (1909), Terras de França (1909) e Paisagens de Espanha (1910).

É especialmente em Contos da vida e da morte (1907) e em O cisne branco (1910) que Thomaz Lopes apresenta narrativas perversas, nas quais o medo e emoções correlatas são tematizados e acionados como efeito de recepção. Em Defunto (1907), por exemplo, o tema é o horror de ser enterrado vivo; já em Espectro (1907), a morte, andando por um campo de guerra, é a personagem principal; há, ainda, Capitão Maciel, 3ª Companhia, relato sobre uma aparição nos moldes da ghost story oitocentista. Destaca-se também Uma aposta (1910), conto que dialoga intimamente com A Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo, tanto pela presença de um grupo em uma taverna, quanto pela história de um corpo que, embora velado em uma igreja, pode ainda estar vivo.

Os muitos e explícitos elementos que aproximam a obra de Lopes das narrativas de Edgar Allan Poe fazem-se presentes em A monja. Escrita em 1899 e publicada em Contos da vida e da morte, a trama consiste na história de Mariana, uma religiosa cujo destino é marcado pela morte de familiares e do antigo noivo. Em uma atmosfera mórbida, a personagem busca conforto nos subterrâneos de um convento. Nesse local, a protagonista é espreitada por um gato preto e depara-se com a figura do noivo morto.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Os olhos (Domício da Gama)

dep933-fa5a7316-c103-4a93-9fa2-0d6144d42fb5“Domício da Gama (1862-1925) fez parte da fundação da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de número 33, e escolheu como patrono Raul Pompeia. Em 1919, assumiu a presidência da Instituição. Apesar de ter contribuído para jornais brasileiros e ter escrito diversos contos e crônicas, ele adquiriu renome não por suas obras literárias, mas por sua carreira diplomática. Entre 1911 e 1918, desempenhou as funções de Embaixador do Brasil nos Estados Unidos, sucedendo a Joaquim Nabuco, e, em seguida, foi escolhido como ministro das Relações Exteriores no governo de Delfim Moreira.

Sua obra literária está circunscrita à publicação de textos em jornais e de dois livros de contos: Contos a meia tinta (1891) e Histórias curtas (1901), sendo este último uma atualização do primeiro. Em algumas de suas narrativas, Domício da Gama adota procedimentos característicos da ficção decadente, como os cenários degradados e degradantes, as personagens que traduzem uma visão de mundo pessimista e a linguagem que denota bastante preocupação estética. Em Obsessão, por exemplo, texto presente em Histórias curtas (1901), aborda-se o sadismo como uma patologia e exploram-se as relações entre crueldade e erotismo. No conto, o protagonista, encarcerado e em meio a uma crise de fundo religioso, narra a história de sua perversa e violenta volúpia em relação à sua esposa, interpretando a origem de tais desejos como uma ‘possessão’ maligna que lhe faz perder o controle sobre os próprios desejos.

Também tributário da poética decadente, o texto selecionado para esta antologia nunca foi editado pelo autor em um livro. Trata-se do conto Os olhos, publicado em 1898, na Revista Brasileira, coordenada por José Veríssimo. É uma narrativa em primeira pessoa na qual a personagem principal expressa suas emoções após o enterro de uma pessoa querida. Ao dirigir-se a uma praia e contemplar o mar, o protagonista depara-se com um universo sobrenatural de trevas e seres aterrorizantes.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


O velho piano (Afonso Celso)

Piano“Afonso Celso (1860-1938) foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de nº 36. Foi advogado, deputado, professor e jornalista, além de ter recebido o título de Conde, em 1905, do Papa Pio X. Publicou livros de poesia, como Poemetos (1880) e Rimas de Outrora (1891), além de prosa de ficção, como Lupe (1894) e Notas e ficções (1894). É mais conhecido como autor de Por que me ufano de meu país (1900), livro em que destaca, com tom patriótico e hiperbólico, as qualidades e os feitos nacionais.

Vários de seus contos são marcados por uma ambientação perturbadora, com acontecimentos oníricos e sobrenaturais. Em Morta?!, um dos textos de Notas e ficções, dois amigos estudantes de Direito encontram de madrugada, em uma rua de São Paulo, uma mulher desconhecida, muito bonita e vestida de preto, que os aterroriza por seu silêncio sepulcral. Anos mais tarde, um livreiro especializado em publicações de ocultismo revela-lhes que a mulher era uma aparição. Chiquita, publicado no mesmo volume, também é uma história que envolve fantasmas. Uma mãe, obrigada a abandonar a filha com os padrinhos ricos, teria morrido de tristeza, e seu espírito visitaria a criança todas as noites em seu quarto. Ao final, a protagonista é ainda apontada como causadora da prematura morte da menina.

A próxima narrativa, Velho piano, também faz parte de Notas e ficções, e apresenta igualmente um caso marcado por acontecimentos insólitos. Ao mudar-se de casa, uma família encontra na nova residência o antigo e decadente piano que dá título ao texto. Em determinado momento, uma senhora, contrariando as instruções do narrador-protagonista, resolve tocá-lo. Os sons do instrumento começam a revelar segredos do passado de seus antigos donos.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Jacinto (Bruno Seabra)

1904serafino-macchiati-le-visionnaire-1904“O paraense Bruno Seabra, nascido em Belém, em 1837, não fugiu à tradição dos homens de letras brasileiros, e trabalhou como funcionário público durante toda a sua vida adulta – no Rio de Janeiro, no Maranhão, no Paraná, em Alagoas, e, por fim, em Salvador, até sua morte em 1876, quando servia como oficial da presidência da província da Bahia.

Seabra foi arrolado por Antonio Candido entre os poetas menores do romantismo brasileiro, produto da ‘safra mediana’ que banaliza e dilui os padrões poéticos de uma era. Sua obra de maior reconhecimento, Flores e Frutos (1862), apesar da apreciação pouco lisonjeira de Candido, obteve, à época do lançamento, crítica bastante favorável de ninguém menos do que o jovem Machado de Assis, que elogiou, não sem entusiasmo, a ‘ingenuidade dos afetos traduzida na simplicidade da expressão’. Seabra legou-nos aproximadamente duas dezenas de obras, boa parte nunca publicada, entre narrativas, peças teatrais e livros de poemas, algumas delas sob o pseudônimo de Aristóteles de Sousa.

Jacinto, conto selecionado para compor este volume, foi publicado n’A marmota, revista de Paula Brito, em 1861. As alusões aos trabalhos de Ann Radcliffe e E. T. A. Hoffmann confirmam a que tradição literária a narrativa se filia. O narrador-protagonista é um homem que, embora se revele cético desde as mais tenras idades, tem profundo interesse por histórias sobre almas de outro mundo. Ao chegar ao Rio de Janeiro, conhece um certo Sr. Marçal, um misterioso homem versado em magia, pseudociências e ocultismo. Vendo a oportunidade pela qual sempre esperara de testar definitivamente suas crenças, o narrador pede ao necromante que evoque o espírito de seu tio, há muito desaparecido em condições misteriosas. Quem aparece, por fim, não é o parente, mas um espírito de nome Jacinto, conduzindo a narrativa a um desfecho característico das ghost stories dos oitocentos.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Dalzo (Zoroastro Pamplona)

LaLeyendadelaViudaCorreg“Zoroastro Augusto Pamplona é certamente o mais obscuro entre os autores cujos contos foram selecionados para integrar esta coletânea. Do pouco que se conhece sobre ele, sabe-se que nasceu em Pernambuco, em 1838, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1872. Seu pai, Frederico Augusto Pamplona, foi um político de alguma importância no Ceará, filiado ao Partido Liberal, e muito próximo a José Martiniano de Alencar – pai do autor de Iracema. Seguindo a vocação paterna, Zoroastro também foi um liberal, mas não obteve sucesso em sua candidatura ao cargo de deputado provincial em 1862.

Referências mais próximas às lendas do que dos fatos falam de Zoroastro Pamplona como membro frequentador da mítica Sociedade Epicureia, em companhia de Álvares de Azevedo, Andrada e Silva, Bernardo Guimarães, Castro Alves, Fagundes Varela, entre outros.  De concreto, sabe-se que, de fato, assim como os demais supostos companheiros epicuristas, ele foi bacharel pela Faculdade de São Paulo. É desse período a única publicação dele que se tem notícia: o livro Poesias e contos (1861). Composto por duas partes distintas, a primeira reúne trinta e três poesias, a segunda cinco narrativas – entre elas a selecionada para compor esta antologia. Pamplona foi ainda um dos redatores do jornal Fórum Literário (1861), que publicava ensaios sobre a literatura romântica.

Dalzo foi publicado pela primeira vez em 1859, na revista Ensaios da Sociedade Brazilia. Trata-se de uma narrativa em terceira pessoa, que se desenrola em torno do protagonista que dá nome ao conto, uma personagem entre o herói gótico e o melodramático, que cavalga por uma noite de tempestade. Descrito como senhor de uma ‘sublime alma de poeta’, Dalzo parte para o encontro de seu amigo Églio, adentrando um repulsivo e aterrorizante covil de antropófagos. A narrativa parece emular passagens da Ilíada, seja na ira vingativa que aproxima Dalzo de Aquiles, seja na homoafetividade latente nos pares Aquiles-Pátroclo e Dalzo-Églio.”

Leia aqui o conto completo.

(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.