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Mulheres monstruosas: o ctônico e o selvagem em Carmilla, de Le Fanu (Marina Pereira Penteado)

1200px-Carmilla“O presente trabalho propõe uma discussão a respeito da representação demoníaca das mulheres, através de aspectos que são normalmente ligados ao próprio feminino, na novela Carmilla: a vampira de Karnstein, de Sheridan Le Fanu. Com base em estudos que analisam a perda da autonomia da mulher sobre seu próprio corpo, o primitivo e animalesco e suas representações na literatura, além de estudos que debatem a monstruosidade percebida na figura da mulher e em quase tudo que é ligado ao feminino, busca-se fazer uma reflexão sobre como a incorporação do selvagem, do ctônico e do dionisíaco tomam forma em Carmilla, e até que medida esses aspectos são utilizados para justificar a morte da vampira.”

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Abusões, n. 9, 2019.2. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


Introdução à terceira edição de Frankenstein (Mary Shelley)

Ilustración de Júlia Sardà Portabella para Frankenstein, de Mary Shelley“Mary Wollstonecraft Shelley (1797-1851) foi uma contista, romancista e ensaísta inglesa, filha da filósofa e feminista Mary Wollstonecraft e do romancista e ensaísta político William Godwin. Cresceu imersa em um contexto intelectual efervescente, e, em 1816, casou-se com o poeta Percy Bysshe Shelley, após o suicídio de Harriet Westbrook, a primeira mulher do escritor.

A autora publicou diversas obras, que vão desde romances históricos como Valperga (1823) e Perkin Warbeck (1830), a narrativas de ficção científica como o pós-apocalíptico The Last Man (1826), que fala de um mundo arrasado por uma doença devastadora. Ela ainda foi responsável, após a morte de Percy, por editar os textos póstumos e os Poetical Works (1839) do marido, com longas e inestimáveis notas sobre a obra. Mary Shelley ficaria mais conhecida, contudo, por seu célebre romance de estreia, Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818), uma narrativa que, além de fazer parte da tradição gótica, é considerada obra embrionária da ficção científica.

Selecionamos para nossa antologia a introdução à terceira edição de Frankenstein, publicada em 1831. Nela, Mary Shelley narra a famosa e anedótica origem do romance: em 1816, ela e seu futuro marido passaram o verão, à beira do Lago Léman, em companhia dos escritores John Polidori e Lord Byron. Este propôs que cada um dos quatro escrevesse uma história de fantasmas. Dessa empreitada surgiu o esboço do ro- mance sobre a monstruosa criatura engendrada pela hybris do cientista Victor Frankenstein. Neste prefácio, escrito treze anos após a primeira edição da obra, Mary Shelley não apenas respondeu àqueles que ques- tionavam o fato de uma jovem de dezoito anos ter tido a capacidade de escrever um romance tão assombroso, mas também desvelou a origem da história.”

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.

 

 


Vampiras do sertão no conto “As morféticas”, de Bernardo Élis (Fabianna Simão Bellizzi Carneiro)

“O presente artigo levanta reflexões a respeito do mito do vampiro e como este pode ser relido em diferentes sociedades, especificamente na sociedade sertanista goiana das primeiras décadas do século XX, que sofria os impactos da industrialização no campo. Objeto de complexas interpretações sobre o Brasil, o sertão evoca profícuas discussões sobre a formação da sociedade brasileira, alinhavadas com o excludente discurso que o nomeia como local oposto à modernidade e ao progresso da cidade. No caso deste trabalho, objetivamos traçar paralelos entre o mito do vampiro europeu e a presença de elementos caracterizadores desta personagem no conto As Morféticas publicado inicialmente em 1944 na coletânea Ermos e Gerais, do escritor goiano Bernardo Élis (1915-1997), para que assim possamos comprovar a hipótese de que os monstros que rechaçamos e segregamos podem, sim, falar a respeito de questões econômicas e políticas.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Abusões, n. 9, 2019.2. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


“Do sobrenatural na literatura” (Ann Radcliffe)

New_Lead“Ann Ward Radcliffe (1764-1823), única filha de William Ward e Anne Oates Ward, foi uma influente romancista e poetisa inglesa, reconhecida por ser um dos pilares da ficção gótica setecentista. Em 1787, aos 23 anos, casou-se com William Radcliffe, jornalista que a incentivou em suas atividades literárias. Iniciou sua carreira de maneira anônima com a publicação de The Castles of Athlin and Dunbayne (1789) e A Sicilian Romance (1790). Sua fama começou a se delinear com seu terceiro romance, The Romance of the Forest (1791), ambientado na França do século XVII, mas foi com The Mysteries of Udolpho (1794) que ela se tornou a romancista mais popular da Inglaterra de sua época.

Em The Italian (1797) Radcliffe atingiu o auge de sua perícia narrativa, consolidando-se como pedra angular do Gótico. Seus romances caracterizam-se pelas descrições romantizadas da natureza e por enredos que apostam em prolongadas cenas de suspense e que exploram os efeitos do terror em detrimento do horror. Os originais desses dois últimos títulos renderam-lhe, respectivamente, £500 e £800, em uma época em que o valor médio dos manuscritos era de £10.

Além do sucesso comercial, a escritora também obteve a aprovação da crítica da época e acumulou epítetos elogiosos, tais como o ‘Shakespeare dos escritores de romance’, atribuído por Nathan Drake, e ‘A primeira poetisa da ficção romântica’, dado por Walter Scott. Nos últimos vinte anos de sua vida, a escritora deixou de publicar romances e dedicou-se quase exclusivamente à poesia. Publicado postumamente no volume 16, número 1, da New Monthly Magazine, ‘Do Sobrenatural na Literatura’ (1826), o ensaio selecionado para compor esta antologia é, até hoje, uma das mais influentes distinções entre o terror e o horror na ficção.”

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(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


“Sobre a superstição do Gótico” e “Sobre objetos de terror” (Nathan Drake)

cd5d2e23b063485b1d8bce7f477e1ea4Nathan Drake foi um médico e literato inglês, mais conhecido por ter produzido o livro Shakespeare and His Times (1817), que reúne informações da época elisabetana e análises da literatura da época – sobretudo, da obra shakespeariana. Desde a infância, Drake exibia interesses e habilidades científicas e literárias. Formou-se em Medicina pela Universidade de Edimburgo, em 1789, com a tese De Somno, que despertou suspeitas quanto à sua autoria devido à sua brilhante escrita em latim. Drake possuía profunda afeição pela literatura, e tornou-se membro honorário da Royal Society of Literature.

Em 1790, lançou o periódico The Speculator, em que publicou ensaios sobre literatura e dramaturgia alemãs, das quais era um grande entusiasta. Alcançou grande popularidade no início do século XIX a partir da repercussão de seu livro de ensaios críticos, Literary Hours (1798). Vinte e dois anos após o lançamento, a obra já contava com três volumes e fora traduzida para o alemão e para o francês. Nela, Drake também incluiu produções autorais em prosa e verso. Nesses textos, seu interesse pelo sobrenatural torna-se evidente, sobretudo no conto The Abbey of Clunedale, fortemente inspirado pelos elementos góticos radcliffeanos.

Tal como o seu título sugere, o ensaio “Sobre a superstição do Gótico” discorre a respeito das fontes da superstição gótica e, além disso, discute o prazer e o fascínio que esse tipo de literatura desperta em seus leitores. Já em “Sobre objetos de terror”, o autor divide os elementos que promovem reações emocionais em dois tipos: os que provêm de seres e de eventos naturais, e os originados por entes sobre-humanos. É neste ensaio que Drake confere à Ann Radcliffe a famosa alcunha de “Shakespeare dos romancistas”, ao produzir uma crítica apologética e instrutiva de O Italiano (1797).

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(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


No temor da inocência: a imagem do mal com a aparência infantil em narrativas populares no séc. XX (Soraia Cristina Balduíno)

md_a200e967e92c-creepyhalloweencostumes_pumpkin“Desde a configuração do ideal de infância no séc. XIII até sua evolução para o que se considera criança na era contemporânea, em muitas representações e iconografias aliava-se esta representação de fragilidade, ingenuidade, pureza, beleza, e sobretudo, inocência, geralmente sagrava-se a criança como alegria da alma ou ser angélico. No entanto, algumas obras literárias escritas no séc. XX trataram de focalizar outros ares para a inocência, revertendo-as ao um mal perturbador, onde o inocente e o sagrado são transmutados para o profano e aliado a imagem do que a sociedade considera como mal e monstruoso. O presente trabalho tem por objetivo analisar a imagem do mal tendo como veículo a aparência infantil em narrativas literárias – em conjunto com suas adaptações cinematográficas – do final da década de 50 até os meados dos anos 70 do século XX. Portanto, foram escolhidas quatro obras de populares para ilustrar esta proposta, nas quais temos crianças como agentes principais ou fatores associados e próximos, sendo: The Midwich Cuckoos (1957) de John Wydham; O Bebe de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1961) de Ira Levin; O exorcista (The exorcist, 1971) de William Peter Blatty e o conto do escritor popular de histórias de horror Stephen King,  As Crianças do Milharal (Children of the Corn), do livro de contos Sombras da Noite (Night Shift, 1976). Para apontar aspectos sobre o conceito de infância, a primeira parte deste artigo fará uma breve explanação sobre o “sentimento de infância”.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do I Colóquio “Vertentes do Fantástico na Literatura”. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


Sobre o medo (Michel de Montaigne)

Fear Eye Watercolor by Marian VoicuMichel de Montaigne (1533-1592) foi um escritor, político e filósofo francês. Vindo de uma família de negociantes, estudou Direito e trabalhou durante 15 anos no Parlamento de Bordeaux, onde ainda desempenharia as fun- ções de prefeito. É considerado o criador do gênero do ensaio e tem seus trabalhos associados ao humanismo renascentista.

Sua principal obra é Ensaios, publicada entre 1580 e 1588. Os textos nela reunidos discorrem sobre os mais diferentes temas, tais como a Filosofia, a Religião e a Literatura. Seus artigos são frequentemente tomados como importantes reflexões sobre a liberdade do indivíduo e sobre a constituição da subjetividade, e são considerados pioneiros pela crítica literária voltada para as narrativas de cunho autobiográfico.

Mais de um dos ensaios poderiam ser tomados como textos seminais de As Artes do Mal. É o caso de “Sobre a crueldade”, uma reflexão sobre a natureza inata da perversidade humana, em que Montaigne argumenta com referências às guerras e ao comportamento cruel do homem em relação aos animais. Optamos por selecionar, contudo, “Sobre o medo”, o décimo oitavo texto do primeiro volume dos Ensaios. Nele, além de explicitar alguns eventos históricos em que o medo teria influenciado o comportamento dos homens, o escritor busca definir a natureza desse sentimento. Tal emoção é abordada tanto como catalisadora de reações corajosas e instintivas quanto como propulsora de respostas covardes e incogruentes. Ela ainda poderia surgir sem causa aparente e ser de difícil entendimento. Perante a multiplicidade de significados que o medo pode ter e de sua influência sobre o comportamento de povos inteiros, a conclusão do autor se apresenta na célebre sentença: “A coisa de que tenho mais medo é o próprio medo”.

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.