Arquivo da categoria: Ensaios

O Horror Cósmico e o policial em “A estranha morte do Professor Antena” (Bruno da Silva Soares)

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“O presente estudo tem como objetivo averiguar se na narrativa de Mário de Sá-Carneiro seria possível existirem pontos tangenciais ao enredo de Lovecraft. Partindo de um consenso comum da crítica acadêmica, pode-se entender que o Medo e o Horror se encontram em diálogo com a hesitação ante os fatos da realidade consensual em conflito com a irrupção de uma outra, de teor sobrenatural, considerando, assim, o Fantástico como zona limítrofe ou includente dos gêneros citados.Não obstante, a tradição do romance gótico, quando trata de teor investigativo, surge com a proposta de embate da razão versus o inaudito, marca constante dos textos de Poe e seus sucessores, como Lovecraft, e pela escolha de corpus desta análise, pode-se afirmar de Sá-Carneiro. Assim, a tradição das narrativas detetivescas de Poe é mantida por Sá-Carneiro com o professor Domingos Antena e sua busca espiritual-científica por outras dimensões. A hesitação, traço fundamental para o gênero fantástico, segundo Todorov, se prenuncia, inclusive, no título da obra escolhida para esta análise, indicando também um paralelismo entre o romance policial e o horror. Com uma diegese representando os elementos clássicos da escola de enigmas, crime, uma investigação e a resolução por método dedutivo, o mistério do enredo parece conter traços pertinentes à estética do horror cósmico, desenvolvida por Lovecraft em seu ensaio O horror sobrenatural em literatura. Essa premissa de paralelismo entre estéticas aparentemente díspares pode se tornar possível dentro do campo narrativo quando se identificam no enredo sá carneriano elementos que são comuns nos enredos lovecraftianos, como a investigação de um suposto evento sobrenatural, coexistência de entidades de fora do mundo empírico e a iminente fatalidade de toda a humanidade.”

Leia o ensaio completo aqui.

(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


A alegoria e o fantasma no Gótico brasileiro: Cornélio Penna e Lúcio Cardoso (Fernando Monteiro de Barros)

Resultado de imagem para casa fantasmagorica“A literatura gótica, desde o seu início, apresenta um cenário que transcende as fronteiras endógenas das ilhas britânicas. O mundo mediterrâneo, em romances como o pioneiro O castelo de Otranto, de Horace Walpole (1764), bem como a Transilvânia de Drácula, remete a um espaço marcado por estruturas mais arcaicas face à modernização e ao “progresso” do norte europeu. Os conceitos de alegoria e de fantasma permitem endossar uma categoria do gênero Gótico exógena ao seu cenário europeu de origem: o Gótico brasileiro, que, em comum com o Gótico do sul dos Estados Unidos, o Southern Gothic, além de apresentar um cenário ambientado no novo mundo e de clima ensolarado, apresenta também uma cenografia textual marcada pelo passado latifundiário e escravocrata que, no século XX, avulta como ruína e espaço tenebroso. Neste contexto, inscrevem-se obras de alguns autores da literatura nacional, como Cornélio Penna e Lúcio Cardoso, romancistas que surgiram nos anos de 1930 e situaram-se em uma corrente antípoda ao regionalismo social da época. Em narrativas como A menina morta, de Penna, publicado em 1954, e Crônica da casa assassinada, de Lúcio, de 1959, encontramos o traço gótico do passado que assombra o presente, em cenários brasileiros da época colonial e imperial, fantasmaticamente representados enquanto ruína alegórica do Brasil patriarcal pré-republicano e pré-moderno, nos quais os personagens, alguns com traços vampirescos, também demonstram ressonâncias dos tipos frequentes dos romances góticos, como o aristocrata malévolo e a donzela perseguida. Assim, muito mais do que destacar uma literatura gótica produzida no Brasil por autores como Álvares de Azevedo e Cruz e Sousa, que não apresentam a cor local em seus textos “góticos”, tais textos literários apresentam aspectos do Gótico perpassando elementos que compõem a história e a cultura das terras brasileiras.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização do própriao autor, com fins puramente acadêmicos.


Meu tio o Iauaretê e a experiência abissal (Josué Godinho)

Resultado de imagem para meu tio iauaretê onça“Este texto busca formular perguntas e problematizar a natureza da violência que se encena no conto ‘Meu tio o Iauaretê’, de João Guimarães Rosa. Neste conto há um tipo de violência que está na ordem do absurdo, destituída de razão ou explicação aparentes. A violência que ali se encena, pela absurdidade e pela carência de fundo e razão, não parece admitir da crítica respostas satisfatórias, abalando, inclusive, os conceitos de representação e de representação da violência. “Meu tio o Iauaretê”, questionando as bases de qualquer racionalidade, se insere na ordem de uma violência crua e desprovida de sentidos, impactante por sua carência de motivações aparentes além da dissolução de limites entre o humano e o animal – espécie de monstruosidade – e por sua esterilidade. Interessa-nos a experiência abissal dessa violência que não se deixa reduzir e que mesmo depois do fim da fala dissemina-se para além do texto, incômoda e renitente. Tal leitura terá apoio teórico, principalmente, de Jacques Derrida.”

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(*)Esse ensaio foi publicado originalmente na revista Em Tese, V. 22, N. 2, 2016. Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


O serial killer como narrador em Zombie, de Joyce Carol Oates (Luciano Cabral)

Resultado de imagem para zombie joyce carol oates“Partindo do julgamento de Adolph Eichmann e das observações de Arendt, pretendo mostar que há uma estreita relação entre o que acontece e o relato deste acontecimento (ou entre fábula e enredo, respectivamente). A pesquisa que planejo, como doutorando, encontra-se justamente nesta relação. A narrativa do serial killer enquanto produtor e transmissor do horror (um horror artístico) que ele mesmo inflige é meu corpus de investigação – por isso, a necessidade de sua narração ser autodiegética. As obras ficcionais de crime têm frequentemente utilizado informações sobre matadores seriais reais para compor suas tramas. Porém, assim como Eichmann, o comportamento deste assassino real é tão trivial e suas motivações tão banais, que ele se torna ineficiente como narrador de seus próprios atos horríveis. Para que eventos e relatos tornem-se igualmente horríveis, argumento ser preciso alinhar estes dois elementos. Isto implica dizer que a narrativa deve afastar-se da monotonia discursiva do serial killer real. Há romances, entretanto, que optam por manter esta monotonia discursiva, como parece ser o caso de Zombie (1995), de Joyce Carol Oates. Se é correto afirmar tal coisa, como este assassino ainda mantém (se é que mantem) seu caráter horrível? Explorar as estratégias narrativas desta obra parece ser o caminho para responder a esta pergunta.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do XV Congresso Internacional da ABRALIC. Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


A categoria estética do grotesco e as poéticas realistas: uma leitura de “Violação”, de Rodolfo Teófilo (Júlio França)

Resultado de imagem para violação rodolfo teófilo“O objetivo deste artigo é demonstrar como as poéticas realistas da literatura são tributárias de procedimentos estéticos característicos do que se convencionou chamar de arte grotesca. Para ilustrar essa hipótese, tomamos uma narrativa do Naturalismo oitocentista brasileiro, Violação (1898), do escritor cearense Rodolfo Teófilo. Antes, porém, propomos uma descrição do conceito de grotesco com o qual trabalhamos, a partir das contribuições de Victor Hugo (2009), Wolfgang Kayser (2002), Mikhail Bakhtin (2010) e Geoffrey Galt Harpham (2006).”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente em Figurações do real: literatura brasileira em foco, Relicário Edições (2017). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.


Edgar Allan Poe e a simbologia do medo (Marihá Lopes)

ravenpoe“Edgar Allan Poe teve sua história rodeada por mistérios e sua obra não poderia ser diferente, sendo um escritor reconhecido como um dos precursores do fantástico estranho, comentado e aclamado pela crítica. Suas narrativas são centralizadas no indivíduo e em seus problemas pessoais referentes à alma e aos sentimentos. Dentre diversas características, sua obra se destaca pelo confronto entre o mundo interior e o mundo exterior, criando narrativas de mistério, alucinações, terror e morte, que podem retratar os medos e as ansiedades que assombram a mente humana. ‘O corvo’ é um dos poemas mais famosos do escritor, cujo tom mórbido e depressivo prevalece ao longo da escrita. Já ‘O gato preto’ traz à tona um estudo da psicologia da culpa, através de um narrador assassino, cuja mente doentia usa a lógica para explicar o que uma mente normal iria entender intuitivamente. Nesse sentido, os conflitos internos dos protagonistas são tão fortes que a realidade pode se apresentar distorcida pelo imaginário. Observamos, assim, que é dentro do imaginário humano que vários símbolos ganham significados. Considerando isso, trabalhamos representações do medo em ‘O corvo’ e ‘O gato preto’, através de imagens ou elementos presentes e suas possibilidades simbólicas.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do CENA IV. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


O fantástico em O Mistério de Highmore Hall e Tempo e Destino, os primeiros contos de Guimarães Rosa (Luis E. W. Machado)

Digital Camera‘Tempo e Destino’ e ‘O Mistério de Highmore Hall’ são dois dos primeiros contos de Guimarães Rosa publicados no jornal O Cruzeiro quando o autor era estudante de medicina e contava com tão somente 21 anos de idade. Apesar da grande diferença no estilo dos trabalhos que logo seguiriam, já podemos perceber nestes primeiros exercícios a grande preocupação do autor em não seguir modelos realistas, cartesianos e lineares; ao contrário, Guimarães Rosa já deixa claro sua preocupação com o efeito estético apelando para o misterioso, para o horror e para o fantástico para dar luz a um efeito não racionalista que visa ao poético por meio do choque, do misterioso e do inexplicável. Como Horace Walpolle, Poe e Lovecraft, Guimarães Rosa busca nesses primeiros contos sua inspiração na matriz da literatura gótica e fantástica dos séculos XVIII e XIX, matriz essa que logo será substituída por outra, de caráter regionalista, mas que não perderá nunca o viço do místico e do inexplicável.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente na Revista Fronteiraz (2009). Republicamos aqui, com autorização do próprio autor, com fins puramente acadêmicos.