As Minas de prata (José de Alencar)

“Chegados à porta da recâmera, o fidalgo empurrou o monstro e fechou a porta. O que se passou dentro daquela recâmera onde jazia a dama inanimada, ninguém o soube; deve de ter sido uma coisa horrível. O marido correra como louco até a porta da rua; e de lá voltara ainda mais rápido e delirante. Quis entrar; caíra-lhe a chave no corredor escuro. Então bateu como um furioso com o crânio e o peito de encontro à porta, até que a despedaçou. A dama estava inanimada sobre o tapete; o cadáver estendido do outro lado; e o negro acocorado a um canto como um cão de guarda.

A um gesto do fidalgo, ele tomou o espojo do cavalheiro e desceram ambos ao horto. Cavaram toda a noite; a cova recebeu dois cadáveres, o do cavalheiro morto e o do africano vivo. No dia seguinte, da cena lúgubre, que se representara nessa casa, não apareciam vestígios.

A dama perdera a razão; meses depois a recuperou com a consciência de uma dor maior, se é possível, de que sofrera. Sentiu que um ente vivia em suas entranhas; e recordando a noite fatal e o sonho horrível que a precipitara na demência, só o heroísmo da maternidade pôde jungi-la à vida ignominiosa que lhe fizera a brutal e espantosa vingança do marido.

[…]’

— Sabeis quais foram as figuras dessa lúgubre tragédia? perguntou o velho.

O cavalheiro mordia nos lábios o soluço rebelde: a sua pungente atitude respondia por ele.

— A cena foi nesta mesma casa. Aquela porta é a da câmera nupcial; desta janela vê-se o horto…

— Calai-vos, demônio!… gritou o moço com os cabelos eriçados.”

Leia aqui As Minas de prata, vol. 1, de José de Alencar

Leia aqui As Minas de prata, vol. 2, de José de Alencar

Leia aqui As Minas de prata, vol. 3, de José de Alencar

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Sobre William Wilson

"Eu descendo de uma raça que se distinguiu, em todos os tempos, por um temperamento criativo e facilmente irritável; e que, desde a minha infância, provou que eu herdara por completo o caráter de minha família." Ver todos os artigos de William Wilson

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