O Coração das Trevas (Joseph Conrad)

“Desci sobre uma caldeira que despontava do mato e depois achei uma trilha conduzindo para o alto da colina. […] Mas enquanto estava ali, naquela encosta, tive o presságio de que, na claridade cegante daquela terra, eu viria a conhecer um demônio frouxo, fingido, míope, de uma loucura rapace e cruel. […] Cheguei enfim embaixo das árvores. Pretendia caminhar um pouco à sombra mas, mal havia chegado até ela, tive a sensação de ter entrado no círculo sombrio de algum inferno. […] Vultos negros encurvados jaziam, sentados entre as árvores, recostados em seus troncos, agarrando-se à terra, em todas as atitudes de dor, abandono e desespero. Outra mina explodiu no rochedo seguida de um leve estremecimento do solo embaixo dos meus pés. O trabalho prosseguia. O trabalho! E aquele era o lugar para onde alguns auxiliares haviam se retirado para morrer. Eles estavam morrendo aos poucos – isso ficou muito claro. Não eram inimigos, não eram criminosos, não eram nada de real agora – nada além de sombras negras de doença e inanição jazendo em confusão na penumbra esverdeada. Trazidos de todos os recessos da costa com toda a legalidade de contratos temporários, largados em ambientes insalubres, alimentados com uma comida nada familiar, eles adoeciam, ficavam imprestáveis e tinham então a permissão para se arrastar para longe e morrer. Esses vultos moribundos eram livres como o ar – e quase tão tênues como ele. […] Perto da mesma árvore, dois outros feixes de ângulos agudos estavam sentados com as pernas recolhidas. Um, com o queixo apoiado nos joelhos, olhava para o vazio de um modo intolerável e assustador; seu irmão fantasma apoiava a testa, como que prostrado por uma exaustão extrema […]. Enquanto estava ali de pé, horrorizado, uma daquelas criaturas se ergueu sobre as mãos e os joelhos e se afastou de quatro na direção do rio para beber. Bebeu como um cachorro, de sua mão, e então sentou-se ao sol com as canelas cruzadas a sua frente e, depois de alguns instantes, deixou a cabeça encarapinhada pender sobre o peito. […].”

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Sobre William Wilson

"Eu descendo de uma raça que se distinguiu, em todos os tempos, por um temperamento criativo e facilmente irritável; e que, desde a minha infância, provou que eu herdara por completo o caráter de minha família." Ver todos os artigos de William Wilson

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