O médico e o monstro (Robert Louis Stevenson)

“(…) Os poderes de Hyde pareciam ter aumentado com a enfermidade de Jekyll. E o ódio que agora os dividia era igual em ambas as partes. No caso de Jekyll, era um instinto vital. Agora, havia visto toda a deformidade daquela criatura que compartilhava consigo alguns dos fenómenos da consciência e seria co-herdeira da sua morte. Para além desses vínculos, que em si constituíam a parte mais patética da sua desgraça, considerava Hyde e toda a sua energia vital como algo não só de infernal, mas também de inorgânico. E essa era a coisa mais espantosa: que a lama da tumba pudesse emitir gritos e vozes, que o pó amorfo gesticulasse e pecasse, que o que estava morto e sem forma usurpasse as funções da vida. E, sobretudo, ter consciência de que esse horror que surgia lhe estava ligado de um modo mais íntimo que uma esposa, mais que os seus próprios olhos, encerrado na sua própria carne, onde o sentia a gemer e a lutar por renascer. E a cada momento de fraqueza, na confiança do sonho profundo, prevalecia sobre ele, despojando-o da vida. O ódio de Hyde para com Jekyll era de natureza diferente. O terror da forca levava-o continuamente a suicidar-se temporariamente e a regressar à sua condição subordinada de parte em vez de pessoa; mas detestava essa necessidade, detestava esse desânimo em que Jekyll estava agora mergulhado e ressentia-se com o desprezo com que este o olhava. Daí os gestos simiescos com que me obsequiava, escrevendo com o meu punho e letra blasfémias nas páginas dos meus livros, queimando cartas de meu pai e destruindo o seu retrato. Claro que se não tivesse sido por medo da morte, há já muito tempo que teria procurado a sua própria ruína com a única finalidade de me arrastar a mim também. Mas o seu amor pela vida é formidável: irei mais longe: eu, que fico doente e que sinto um frio terrível só de pensar nele, quando recordo o seu apego abjecto e apaixonado à vida, quando me dou conta de como ele receia o poder que eu possuo para o eliminar mediante o suicídio, sinto pena dele no-mais profundo do meu coração. (…)”

Leia aqui o romance completo, em inglês

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Sobre William Wilson

"Eu descendo de uma raça que se distinguiu, em todos os tempos, por um temperamento criativo e facilmente irritável; e que, desde a minha infância, provou que eu herdara por completo o caráter de minha família." Ver todos os artigos de William Wilson

2 respostas para “O médico e o monstro (Robert Louis Stevenson)

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