O gótico literário no Brasil: Lygia Fagundes Telles (Camila Mello)

“(…) São os mistérios, os medos, as lembranças, os desejos e os fantasmas que rondam essa família que vão atribuir-lhe um caráter gótico, que vão explicitar fatos reprimidos e instigar a sensação do unheimlich. A questão da volta inconstante do passado na vida dos personagens como corpo assombrador, fantasma incansável, também é recorrente em outras narrativas góticas. Em Ciranda, o retorno do passado fica mais evidente na segunda parte do romance: antes de Virgínia sair do internato para retornar à casa de Natércio, ela rasga várias cartas como símbolo da superação de lembranças dolorosas. Além disso, afirma não ter memória sobre eventos da infância. Contudo, no contato com o pai, as irmãs, e os amigos, Virgínia percebe que o passado não havia sido realmente esquecido: ‘Mortos e vivos, voltaram todos (…) estão todos por aí, completamente soltos. E a confusão é geral’ (Telles, 1998: 100-101). O terror do passado é tal, que um dos motivos que a leva a se entregar à Rogério é que ele não trazia nenhuma lembrança, pois não fazia parte da ciranda da juventude. Talvez o maior motivo para tantas fugas de Virgínia – o internato, as saídas repentinas, a vontade de morrer, a viagem pelo mundo – seja exatamente a dificuldade de lidar com os fantasmas do passado, com os sentimentos que podem reaparecer e mostrar feridas. (…)”

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Sobre William Wilson

"Eu descendo de uma raça que se distinguiu, em todos os tempos, por um temperamento criativo e facilmente irritável; e que, desde a minha infância, provou que eu herdara por completo o caráter de minha família." Ver todos os artigos de William Wilson

Uma resposta para “O gótico literário no Brasil: Lygia Fagundes Telles (Camila Mello)

  • Luciano Cabral

    Olá, Camila.
    Gostaria de parabenizá-la por sua leitura gótica sobre ´Ciranda de Pedra´. A tradição literária brasileira parece classificar tudo como literatura realista. Porém, o gótico e o fantástico são muito presentes (tão presentes, talvez, quanto o realismo). Este ´bildungsroman´, como bem dito por você, traz elementos góticos e várias referências literárias – o gato, a casa, o isolamento, a abjeção, a figura de Frau Herta, os insetos, etc. -, o que reafirma a escrita gótica. O ´the fear of the unknown´ está muito mais presente do que o realismo-naturalismo. (LC)

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