Esfinge (Coelho Neto)

“(…) Atirei-me ao divã apertando aflitamente, com as mãos geladas, a cabeça aturdida. Sentia-a crescer, inchar túmida, bojando como um balão e, de todos os pontos da sala, em cascalhada irônica, esfuziavam risinhos de mofa: era uma zombaria geral, o chasqueio das coisas em assuada que me enervava e retransia num grandFear-and-Desire-Illustration-Boris-Pelcer-4657e, inenarrável medo.

Oh! O medo!… Ele vinha como uma inundação. Eu sentia-o chegar, subir sensível, palpável como as grossas e escuras águas revoltas de uma enchente. Um prurido de dormência formigava-me nos pés que esfriavam regelando como de pedra.

O medo chegou-me aos joelhos pesado, inteiriçante, de ferro, cingiu-me em anéis constritos, ciliciando-me o ventre, entalando-me o peito e o coração pos-se a bater sôfrego, aflitíssimo como forçando as grades da prisão para evadir-se. A garganta travou-se-me jugulada, o trismo aperrou-me as mandíbulas e a minha respiração, aos sorvos, era a de agonizante, e rascava. (…)”

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Sobre William Wilson

"Eu descendo de uma raça que se distinguiu, em todos os tempos, por um temperamento criativo e facilmente irritável; e que, desde a minha infância, provou que eu herdara por completo o caráter de minha família." Ver todos os artigos de William Wilson

2 respostas para “Esfinge (Coelho Neto)

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