Prefácio à primeira edição de O Castelo de Otranto (Horace Walpole)

083f33c8b08e3ccce110aaa4053cb4b1Filho mais novo do primeiro ministro Sir Robert Walpole, Horace Walpole foi um conde, membro do parlamento inglês, perito em artes, escritor e colecionador. Foi educado em Cambridge e viajou por um longo tempo pela França e Itália. Entre suas obras mais famosas estão Some Anecdotes of Painting in England (1762), um compêndio em três volumes da história da arte inglesa, e O Castelo de Otranto (1764), romance considerado o precursor da literatura gótica.

Um dos grandes interesses de sua vida foi sua casa na cidade de Twickenham. Conhecida como Strawberry Hill, ela foi transformada em uma atração pública, e adornada, ao longo dos anos, com motivos góticos: galerias, arcadas, torres, muralhas, pinturas e antiguidades. Sua construção foi um grande estímulo para a retomada do estilo gótico na arquitetura doméstica inglesa, em uma época de crescente interesse pela cultura medieval. Já no âmbito literário, o estímulo foi o romance O Castelo de Otranto, cujo prefácio selecionamos nesta compilação.

A obra foi apresentada, primeiramente, como a tradução de um genuíno manuscrito italiano do século XVI, mas a farsa foi desmentida um ano depois, no prefácio à segunda edição. O maior mérito de Otranto foi provocar a retomada, na literatura, da fantasia e do sobrenatural, elementos próprios dos romances medievais, que haviam sido preteridos em favor das narrativas mais realistas e voltadas para assuntos cotidianos, em voga à época. A obra funcionou como um estopim para uma profícua tradição de narrativas que combinavam histórias de horror e terror, cenários medievais e eventos sobrenaturais. O prefácio aqui apre- sentado legou uma interessante reflexão a respeito do que viria se tornar a base da poética gótica.

Leia aqui o ensaio completo.

(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do Sublime e do Belo (Edmund Burke)

T00772_HEdmund Burke (1729-1797) foi um influente político, orador e filósofo irlandês. Nascido em Dublin, estudou no Trinity College antes de se mudar para Londres e iniciar os estudos em Direito, os quais rapidamente abandonaria para investir em sua carreira política. Em 1765, tornou-se membro do parlamento pelo Partido Liberal britânico (popularmente conhecido como Whig Party), posição na qual permaneceu até 1794.

Sua obra versa, majoritariamente, sobre temas relativos ao campo da política. Apesar de Burke geralmente ser omitido das histórias da filosofia, suas reflexões apresentam fortes elementos filosóficos que evidenciam posições de cunho utilitarista e empirista. Louvado, no século XIX, tanto por liberais como por conservadores, e conhecido, a partir do século XX, como o fundador do conservadorismo britânico moderno, Burke foi um forte opositor da Revolução Francesa. Suas considerações a esse respeito resultaram naquela que talvez seja sua obra mais conhecida: Reflexões sobre a Revolução na França, publicada em 1790.

A obra Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo (1757), seu único trabalho puramente filosófico, é um dos principais tratados de estética do século XVIII. Profundamente influenciada pelo empirismo de John Locke, é a primeira obra a separar, claramente, o belo e o sublime em duas categorias distintas e mutua- mente excludentes. Burke compreende o belo como algo relacionado a ideias bem delimitadas e agradáveis, associando-o ao prazer e ao convívio social. Nos trechos por nós selecionados, veremos o sublime ser caracterizado como uma experiência que extrapola os limites de nosso raciocínio, arrebatando-nos em um misto de fascínio e terror. A posição privilegiada que Burke lhe confere foi decisiva para fazer desse o principal conceito estético do século XVIII e uma característica fundamental da transição das poéticas neoclássicas para o Romantismo.

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(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


Os fundamentos da crítica em poesia (John Dennis)

dark academia“John Dennis foi um crítico literário e dramaturgo britânico. Estudou na Harrow School e em Cambridge, onde obteve o título de Mestre pelo Trinity Hall. Dennis viajou pela Europa antes de se instalar definitiva- mente em Londres, onde conviveu com importantes figuras literárias, entre elas, o escritor John Dryden. Apesar de suas odes e peças terem obtido pouco sucesso, Dennis tornou-se um dos principais críticos literários de sua geração, sendo um dos pioneiros na reflexão a respeito do conceito do sublime na Inglaterra. Sua defesa da paixão como um elemento importante para a poesia motivou uma longa polêmica com Alexander Pope.

Entre as principais obras críticas do autor destacam-se The Advancement and Reformation of Modern Poetry (1701) e An Essay on the Genius and Writings of Shakespeare (1712). Dennis defendia que a literatura se aproxima da religião na medida em que seu objetivo seria comover o público. Por esse motivo, privilegiava a emoção e a elevação em detrimento de um discurso polido e ornamentado. Essa postura explica a sua antipatia pela poesia de Pope e sua grande admiração pela obra de John Milton, assim como o seu grande entusiasmo pelo conceito do sublime.

Em The Grounds of Criticism in Poetry (1704), Dennis trata diretamente do sublime, e procura descrever em que consiste a poesia mais elevada e aquilo que compreende por entusiasmo, ou paixão entusiasmada. Em sua defesa da paixão como elemento essencial para a poesia, o crítico incorporou emoções como o terror e o assombro – desprezadas pelos teóricos do Neoclassicismo. Sua preferência pelo terror resulta em uma defesa da presença de ideias religiosas na poesia, pois somente assim um poeta poderia alcançar o mais alto grau de elevação.”

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(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


Sobre o prazer derivado de objetos de terror (John Aikin e Anna Laetitia)

7c759f55-e6b6-4217-a26e-2bc6f0f118ed“John Aikin foi um escritor e médico inglês formado pela Universidade de Edimburgo. Mudou-se em 1792 para Londres, onde, tempos depois, deixaria de exercer seus trabalhos como cirurgião para se dedicar a questões relacionadas à liberdade religiosa e de consciência. Seus estudos trouxeram contribuições significativas para a medicina e para os estudos literários, relacionando, por vezes, as duas áreas – como em seus ensaios que associam as novas descobertas científicas ao aprimoramento da poesia. Entre suas realizações, destacam-se o trabalho como editor da The Monthly Magazine e o lançamento de Evenings at home (1792-1796), uma coleção de histórias infantis escritas em conjunto com sua irmã, a também escritora Anna Laetitia Barbauld.

Engajada politicamente, Anna Laetitia atuou como poeta, ensaísta, editora, e também como professora na Palgrave Academy. Seu trabalho enquanto educadora serviu de modelo para práticas pedagógicas durante muitos anos, e sua atuação como crítica e ensaísta colaborou para o estabelecimento do cânone da literatura do século XVIII. Entre suas obras, destacam-se a série de livros Lessons for Children (1778-1779) – seu mais notório trabalho, fundamental para o desenvolvimento da literatura infantil – e o poema que censurava a participação britânica nas guerras, Eighteen Hundred and Eleven (1812), cujas duras críticas recebidas deram fim a sua carreira literária.

Anna Laetitia e John Aikin publicaram juntos o livro Miscellaneous pieces, in prose (1773), de onde retirou-se Sobre o prazer derivados de terror, texto em que analisam o comportamento humano diante de cenas e objetos terríveis. Os dois irmãos buscam, no ensaio, compreender a intensidade e a variedade de sensações – do espanto à curiosidade, do estranhamento ao prazer – provocadas por cenas de horror artificialmente criadas através das artes literárias.”

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(*) Esse ensaio faz parte da coletânea As Artes do Mal: textos seminais, organizada por Júlio França e Ana Paula Araújo. Adquira o livro aqui.


Gongo-velho (Rodrigo Octávio)

sparrow-hall-farm-3-a-dark-and-eerie-fine-art-photographic-print-of-an-abandoned-suffolk-farmhouse-lee-thornberry“Rodrigo Octávio (1866-1944) foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo ocupado a cadeira de nº 35. Sua biografia, no entanto, é marcada por atividades desenvolvidas no âmbito do Direito: além de advogado, promotor público e juiz, foi, a partir de 1929, ministro do Supremo Tribunal Federal. Participou, ainda, de importantes eventos internacionais, tais como as Conferências de Haia (1899-1907), além de ter sido um dos subscritores  do Tratado de Versalhes (1919).

Em A Literatura Brasileira (1870-1895), o escritor e crítico Valentim Magalhães elogia a obra poética de Rodrigo Octávio pela “distinção da forma e a elevação das ideias”. De fato, sua literatura ficou mais conhecida pelas poesias, tais como as de Pâmpanos (1886) e de Poemas e idílios (1887). Como ficcionista, escreveu algumas narrativas em que personagens e atos perversos estão no centro dos acontecimentos. É o caso, por exemplo, de Bodas de sangue, publicada em 1895 na Revista Brasileira. Nela, apresenta-se a história de um mascate que se dirige a um engenho de açúcar, onde precisaria negociar com um fazendeiro bastante rígido. Durante sua estadia, descobre que a bela filha do senhor tinha um caso com um dos escravos. Após revelar a situação ao fazendeiro, este castiga o negro, retalhando-o inteiro, e ainda obriga o vendedor ambulante a se casar com a moça.

Gongo-Velho, texto selecionado para compor este volume, foi publicado em 1914, em Águas Passadas. Como a obra anteriormente citada, o conto também enfoca a crueldade e as perversões que envolviam as relações entre fazendeiros e seus escravos. A partir de uma narrativa em moldura, um ex-escravo conta, a um viajante, sobre a revolta dos escravos na fazenda do Gongo-Velho e a subsequente vingança empreendida pelo senhor daquelas terras. Com estruturas ficcionais semelhantes às do Gótico sulista norte-americano, o conto explora ao máximo as tensões e os horrores do passado escravocrata brasileiro.”

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(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.


Macário e Satã: viagem fantástica, diálogo crítico (Andréa Sirihal Werkema)

O Satã Conduz Macário pelo Braço, João Fahrion, 1940“O Primeiro Episódio do drama Macário, de Álvares de Azevedo, relata uma viagem feita por um jovem estudante, rumo à cidade na qual irá estudar. O estudante Macário, protótipo de ultrarromântico, cético, irônico e desencantado, flerta abertamente com o lado negativo da existência, o que culmina no encontro, em estalagem de beira da estrada, com um Desconhecido, que se revela, posteriormente, como o próprio Satã. Interessa discutir as implicações advindas de uma escolha pela trajetória fantástica em meio ao Romantismo brasileiro, tão marcado pelas demandas ‘realistas’ de um projeto de formação de identidade nacional via literatura. Analisaremos, portanto, as oscilações do fantástico no Primeiro Episódio de Macário, de forma a averiguar a filiação do drama de Azevedo a um outro Romantismo, que recusa o ‘veto ao ficcional’, em prol de uma literatura subjetivista ao extremo, que deforma a realidade com o intuito de, criticamente, sugerir outros caminhos para a formação da chamada ‘literatura nacional’.”

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(*) Esse ensaio foi publicado originalmente nos Anais do I Colóquio “Vertentes do Fantástico na Literatura”. Republicamos aqui, com autorização da própria autora, com fins puramente acadêmicos.


Aquele olhar (Rocha Pombo)

images (1)“Nascido em Morretes, cidade da região litorânea do Paraná, Rocha Pombo (1857-1933) teve uma carreira intelectual intensa. Aos 18 anos, já trabalhando como professor, escreveu seu primeiro artigo sobre educação, dando início ao que viria a ser uma extensa produção, sobretudo no campo da História. Em paralelo à sua abundante produção bibliográfica, Rocha Pombo desenvolveu uma ativa atuação como homem público, fundando colégios, criando e dirigindo jornais e sendo eleito Deputado Provincial. Ele foi membro tanto do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro quanto da Academia Brasileira de Letras.

Abolicionista e republicano de primeira hora, Rocha Pombo afastou-se da política após a proclamação da República, por motivos familiares, quando passou a se dedicar mais à carreira de escritor. Ele é autor dos dez volumes da História do Brasil (1918), obra que atingiu vinte e três edições e foi adotado como livro oficial para o ensino da disciplina no país. No campo da literatura, o romance No hospício (1905) talvez seja a sua principal obra, apesar da recepção crítica desfavorável à época, ainda dominada por concepções artísticas de cunho naturalista. Descrito por Andrade Muricy como precursora do romance metafísico no Brasil, a narrativa chama atenção pela exploração de um tema caro à tradição da literatura fantástica: o duplo. Tomando como pano de fundo o ambiente opressivo de obsessão e loucura do hospício, Rocha Pombo vale-se de convenções decadentes e simbolistas para compor um prosa poética que mescla misticismo, espiritualidade e terror.

Aquele olhar, selecionado para esta antologia, foi publicado em 1911, no livro Contos e pontos. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, em que o narrador-protagonista, caminhando em meio a ruínas não plenamente identificadas, depara-se com um vulto. Ante a misteriosa figura, que não lhe responde aos chamados, o narrador especula sobre quem ou o que seria a disforme aparição, até que o enigmático ser decide narrar a trágica história de sua ‘dupla’ morte.”

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(*) Esse conto faz parte da coletânea Páginas Perversas: narrativas brasileiras esquecidas, organizada por Maria Cristina Batalha, Júlio França e Daniel Augusto P. Silva. Adquira o livro aqui.